Era a quinta vez naquela semana que eu percebia aquele estranho garoto sentado perto ao balaço da pequena praça abandonada em frente a clínica onde consulto-me diariamente
. Dessa vez consegui velo totalmente , era estranho, ele sempre ficava na mesma posição , observando o balanço fixadamente , o balanço que com o vento ia para frente e para trás bem devagar , do outro lado da praça eu podia velo com bastante clareza , não o conhecia , e nunca tinha o visto na clínica . Eu que parada no meio fio despertei-me dos meus devaneios quando mamãe parou o carro em minha frente , quando voltei os olhos para o garoto ele já não estava mais lá , respirei fundo e entrei no carro , mamãe olhou-me e sorriu
- Nada, não é nada .
- Como foi a consulta hoje ?
- Normal -balbuciei -
- Fez novos amigos no grupo ? -perguntou e pois o carro para funcionar
- Não .
- Suas respostas curtas me assustam querida, ha algo de errado ? -perguntou-me tristemente
- Não mamãe , esta tudo bem -respondi e sorri para a mesma .
* * *
A cortina preta do meu quarto balança com o vento que entrava pela janela entre aberta , Eu podia sentir o vento frio que adentrava o quarto e não conseguia concentrar-me no livro que lia . Imagens destorcidas vinham-me a mente em intervalos vagos . Já estava na hora do meu remédio , esse poderia ser o problema . Fechei o livro e deixei-o em cima da cama , respirei fundo e tonteei pondo a mão na testa, o suor frio havia voltado caminhei até a gaveta e peguei meus comprimidos . Engoli ambos e novamente suspirei , com aquelas cenas estranhas e paralelas voltando a minha cabeça eu não sabia como poderia provar a mamãe como eu havia melhorado e que ela não deveria mais se preocupar comigo .
- Mas .. mas .. Oque .. ? Como você conseguiu entrar aqui ? -gaguejei e estava a ponto de ouvir um grito rasgar-me a garganta sem a minha permissão, mas fiz de tudo para conte-lo .
- A janela estava aberta -ele disse e sua expressão era como se aquilo fosse uma coisa normal .
- Quem é você ? E porque você esta aqui ?
- Eu sei que você tem me observado -ele falava de uma maneira pausada e lenta , como se estivesse aprendendo as palavras , como uma criança de 2 anos
- Observado você ? -novamente gaguejei .
- Quando termina sua sessão na clínica , você para no meio fio e me observa como se eu fosse algo magnifico .
- Eu não sei do que estas falando -murmurei .
- Você mente, não deveria mentir -ele sentou-se no pé da minha cama e eu me agarrei a comoda ao meu lado.
- Oque você quer ? -o medo em minha voz era notável , ele levantou a cabeça e olhou-me dentro dos olhos pela primeira vez , o ranger da porta me assustou , mamãe entrava pela mesma , com biscoitos e um copo de leite . Eu a olhei e ela parou onde estava , meu coração parecia saltar de dentro do peito , quando olhei para o pé de minha cama já na havia mais nada , só o vento forte tocando as cortinas .
- Com quem você estava falando ?
- Com .. Com ... -respirei fundo e relaxei minha mão que segurava com força a como atrás de mim - Com ninguém
- Eu ouvi você dizer algo , Grace .
- Oque ? -eu dei um risadinha nervosa- Claro que não mamãe , eu só estava cantando .
- Hun -ela murmurou e depois de alguns segundos olhando-me com a testa franzida finalmente deu-me um sorriso tranquilo e caminhou até minha com o prato recheado de biscoitos e o copo cheio de leite morno . - Você tomou os remédios , Grace ?
- Acabei de tomar -sorri pegando o prato de biscoitos e o copo de leite de suas mãos .
- Você deveria toma-los na hora certa querida.
- Ora mamãe , eu tomei com vinte minutos de atraso apenas .
- Mas não devia .
- Desculpe -suspirei
- Não se desculpe -ela sorriu- Durma, a mãe da Anna disse que Anna viria passar o dia com você amanhã
- O.k -ela beijou-me a testa e saiu encostando a porta . Sentei-me na beira da cama e olhou para a janela ainda aberta fazendo as cortinas se agitarem. Era algo difícil de explicar, como ele havia entrado e como ele havia saído tão facilmente e rapidamente da li.
* * *
Eram nove da manhã quando uma respiração pesada fez com que eu acordasse de um pesadelo , abri os olhos e não havia ninguém ao meu lado , fechei os olhos com força , talvez fosse coisa de minha cabeça. Os raios de sol iluminavam o quarto através das cortinas marrons do quarto e era quase doloroso abrir os olhos novamente . Levantei-me e desci as escadas encontrando mamãe ao lado de Patrick seu noivo .
- Mamãe ? -a chamei e ela sorriu tirando os olhos de Patrick- Onde esta Beijamin ? -perguntei referindo-me ao filho de Patrick , ele tinha 6 anos e gostava de me acordar pela manhã , mas ele nunca fora tão rápido a ponto de sair antes que eu pudesse até mesmo abrir os olhos .
- A mãe o levou hoje pelas 7:00 , ela disse que o levaria para casa dois avós -Respondeu Patrick por mamãe e eu parei ao ouvir tais palavras -
- E quem estava no meu quarto agora ? -perguntei e eles olharam-me como se eu estivesse perguntado algo insano.
- Não tem ninguém em casa querida , eu e Patrick não subimos -respondeu-me ela e após segundos eu resolvi convencer-me de que poderia ser apenas o vento .
- Por que ? Havia alguém lá encima ? -Patrick levantou-se .
- Não -disse um pouco alto , eu não queria preocupa-los- Não é nada .
Tomei meus primeiros remédios e após a saída de mamãe e de Patrick para a caminhada costumeira deles pela manhã eu vesti meu casaco moletom preto e calça jeans antes de sair para ir a cafeteria . Era domingo o sol estava começando a esquentar , passando pelo parque percebi pessoas felizes , percebi crianças brincarem e queria voltar a brincar daquele jeito , mas não podia , não se pode voltar no tempo .
Uma barreira a minha frente fez-me voltar dois paços para trás , eu havia esbarrado em um garoto. Nunca tinha o visto pela cidade , ele tinha a pele tão clara como leite , olhos claros como mel e vestia-se de maneira tão desgrenhada como se tivesse acabado de sofrer um acidente .
- Eu -ele murmurou
- Você esta me seguindo ? Quem é você ?
- Eu .. Eu não sei -ele murmurou novamente em um tom baixo
- Oque ? -Perguntei e alguém interrompeu-me pondo a mão em meu ombro e virei-me para ver quem era
- Grace ? -Era Anna, eu a olhei e depois voltei a olhar para o garoto a minha frente, mas ela já não estava mais ali, ele havia sumido, sumido tão rápido como na noite passada - Oque você estava fazendo ai parada? -Perguntou-me com um olhar cauteloso
- Eu esbarrei em um garoto -falei - Eu estava falando com ele
- Que garoto, Grace ? Não havia ninguém -eu segurei-me para não entrar em panico, aquilo não podia estar acontecendo, eu havia tomado os remédio certos, e no horário certo, as alucinações não deveriam voltar. Eu sorri em uma tentativa de tentar disfarçar o nervosismo
- Que cabeça a minha, você esta certa não havia ninguém -falei e a mesma franziu a testa
- Ok... Bem eu estava indo a sua casa te buscar para um café
- Eu estava indo para lá também .-forcei um sorriso, mas minha cabeça latejava, no caminho a cafeteria eu não conseguia me concentrar no que ela dizia, só oque me vinha a cabeça era ele, quem seria ele, e oque ele queria, e porque ele queria. Ela pediu nossos cafés e nos sentamos ao lado de fora da cafeteria, Anna era a única amiga que me sobrara depois que comecei a ver essas coisas, muitas pessoas se afastaram, muitas caçoaram, muitas nem se quer lembraram que um dia me chamaram de "amiga". Tomei um gole do café e bati com as pontas dos dedos em cima da mesa nervosamente.
- Como você esta, Grace ? -Perguntou-me ela acendendo um cigarro
- Acho que bem -Falei
- Tem recebido muitas visitas ?
- Não, na verdade desde que larguei a faculdade não vejo ninguém .
- Eu sinto muito.
- Esta tudo bem, acho que é melhor assim -suspirei e bebi um gole do café, ela soltou uma fina fumaça do seu cigarro , e sorriu com o canto direito dos lábios
- Desculpe não estar indo tanto a sua casa, você sabe época de exames .
- Eu tenho passado a semana inteira na clínica, vou quase todos os dias
- E tem melhorado ?
- Sim -murmurei e vi a mesma sorrir enquanto soltava a fumaça de seu cigarro-
- Isso é bom, talvez sua mãe deixe você voltar para faculdade -ela murmurou e eu desviei o olhar para meu café
- Não acho que isso seja possível
- Como não, Grace? Você não pode passar o resto da sua vida com medo, dentro de casa e dentro daquela clínica.
- O problema não sou eu, Anna. -suspirei- São as pessoas, elas não querem uma esquizofrênica por perto
- Mas você vai deixar de viver por causa das pessoas
- Minha psiquiatra não me deu permissão para isso ainda
- Você perguntou a ela se podia ?
- Não -falei- mas se ela achasse que eu deveria voltar a estudar ela provavelmente diria "Por que você não volta a estudar, Grace " -sorri em uma tentativa falha de imitar o tom de voz doce da doutora Katherine
- Eu acho que você esta totalmente bem, Grace.
- Talvez -murmurei .
* * *
- Grace, Grace ... Meu Deus, Grace -A voz aguda de mamãe puxava para fora de um pesadelo, onde eu tentava fugir de um carro que havia tombado em um rio, mas algo agarrava meu pé para o fundo, inúmeras mãos começaram a agarrar meu corpo puxando-me para baixo, não deixando-me respirar, e naquele pesadelo eu tive a sensação de ter morrido e voltado com a voz de mamãe .
- Grace -ela murmurou abraçando-me quando finalmente abri os olhos, eu a abracei de volta, meu corpo estava ensopado, e por um momento eu senti que aquilo fora real, mas era apenas suor . - Shi.. Shi.. esta tudo bem querida esta tudo bem -ela sussurrava tocando meus cabelos e eu a abracei com mais força não contendo as lagrimas, e assim ficamos por cinco minutos até que eu conseguisse enfim ter a certeza de que tudo estava bem, e que fora apenas mais um pesadelo . Mamãe afastou-se um pouco e olhou para mim tirando o cabelo de minha face .
- Grace parecia que você estava tendo uma convulsão -ela murmurou- Oque aconteceu ?
- Um pesadelo -me afastei novamente sentindo os raios de sol tocarem a cortina - Só um pesadelo
- Você deixou de tomar os remédio na noite passada ?
- Não -falei me levantando- Pesadelos são normais , mamãe
- Não quando você começa a se bater e enrolar a linguá como se tivesse tendo uma convulsão, Grace -ela se levantou também
- Desculpe -murmurei
- Desce para o café, e diga sobre esses pesadelos a doutora Katherine hoje, ela precisa saber
- Ok, mamãe
- Oi Grace -ele acenou com a colher para mim e eu sorri sentando-me ao seu lado
- Ué cade seu pai ? -perguntei bagunçando seu cabelo
- Para Grace, eu tenho que ir pra escola, a tia Emma arrumou -ele disse emburrado
- Cade seu pai e mamãe ?
- A tia Emma esta la encima, e papai foi trabalhar
- Já?
- Haham
- E quem vai te levar pra escola ?
- A tia Emma
* * *
- Oque tem a me dizer hoje ? -Perguntou a doutora Katherine e eu olhei para meu dedos entre-lassados encima do meu colo
- Vi um garoto -murmurei
- Um garoto ?
- Ele não é exatamente um garoto ele parece ter vinte anos, e tem a aparência de alguém que sofreu um acidente .
- Acha que ele é real ?
- Acho -suspirei
- E onde o viu ?
- Eu tenho o visto a semanas, bem ali naquela pracinha -apontei para a janela aberta que dava de encontro a praça - Ele sempre estava ali, sentado observando o balanço azul, indo para frente e para trás, rangendo tão alto e agudo a ponto que eu pudesse ouvir parada no meio fio -suspirei e desviei meus olhos do seu olhar observador, ela balançava a cabeça e passava o dedo indicador no queixo, era sempre a mesma coisa, ela me ouvia falar, e não me dizia nada que pudesse mudar a situação- E a duas noites ele simplesmente ... Apareceu no meu quarto , ontem .. Ontem eu esbarrei com ele na rua, e quando eu disse a Anna ela disse que não tinha ninguém -suspirei
- Então você acha que só você o vê ?
- Não.. Não ele é real, eu sei que é.
- Você falou com ele quantas vezes ?
- Duas
- Ele disse o nome dele ? Quem ele era ?
- Ele .. Ele disse que não sabia quem era
- Você tem tomado os remédio na hora certa, Grace ? Talvez seja isso
- Não .. Não é, eu juro que ele existe, juro que outras pessoas podem vê-lo
- Se ele aparecer de novo -ela murmurou inclinando-se na mesa- Pergunte a ele o nome dele, de onde ele vem .
- Eu não quero que ele apareça
- Mas você não disse que ele era real, Grace ?
- Eu mas ... Mas tenho medo de que não seja
- Tome os remédio na hora certa, não deixe de tomar nem um deles.
- Ah -falei lembrando-me da conversa que tive com Anna no dia anterior- Acha que seria uma boa ideia eu voltar para faculdade ?
- Oh -ela sorriu - É um paço muito grande a ser tomado, você acha que pode ?
- Talvez -mordi o lábio inferior
- Acha que esta pronta para tentar isso ?
- Eu não sei .. Não sei se as pessoas ainda vão me olhar como se eu fosse um animal
- Quer esperar mais um pouco ?
- Quero, talvez até ter a certeza de que ele é real e que não estou voltando a ter alucinações .
- Tudo bem .
- Eu voltei a ter pesadelos, e isso esta preocupando mamãe
- E como são ?
- Em todos eu estou morrendo, afogada, queimada, ou enforcada .. -suspirei e olhei para a janela- Eu morro em cada pesadelo, mas em formas diferentes .
- Talvez seja fruto dos seus pensamentos enquanto você esta acordada, na maioria das vezes você sonha com oque você pensa durante o dia -ela levanta o óculos no nariz - Você pensa muito na morte, Grace ?
- As vezes -continuei a olhar para a janela- As vezes enquanto estou acordada penso em como seria morrer por uns dias, mas ai quando eu realmente morro nos sonhos eu me agarro a vida e tenho medo de pensar na morte
* * *
Lá estava ele, parado perto ao balança, que rangia indo para frente e para trás, para frente e para trás, ele observava o balanço com tanta cautela e doçura, eu quis ir lá, quis ir falar com ele, mas ao mesmo tempo não queria chegar perto dele, ele tinha algo que deixava-me apavorada e amedrontada, agarrei-me ao meu casaco e olhei para chão quando senti um forte vento fazer balançar meus curtos cabelos, voltei a olhar para o garoto na praça perto ao balanço azul mas o mesmo já não estava mais lá .
- Você disse que não me observava -Uma voz fez-me virar em quase um pulo para o lado , e ele estava bem ali do meu lado, tão pálido como da ultima vez que eu o vi.
- Meu Deus -eu disse assustada. - Eu não estava te observando
- Estava sim, você sempre me observa.
- Porque você sempre fica ali, parado observando o balanço ? -perguntei levantando a cabeça para olha-lo, ele era alto
- Pensei que não queria falar comigo.
- E não queria -murmurei- Eu não sei quem você é, nem oque é.
- Eu sou gente, ora
- Não parece -falei
- Sou gente como todo mundo é gente.
- Então porque minha amiga não te viu ?
- Por que ela é tola, Grace -falou- Ela não tem oque você tem
- Oque eu tenho ? -Perguntei e quando ele estava preste a responder-me vi o carro de mamãe parar a minha frente, quando voltei a olha-lo, novamente ele não estava mais la. Novamente ele havia sumido. Que diabos ele é ? Oque ele queria dizer ? Suspirei e entrei no carro de mamãe que olhou-me calada por um longo tempo .
- Você estava falando sozinha, Grace ? -ela perguntou
- Sozinha ? Claro que não
- Grace, eu vi. Você estava falando sozinha.
- Não estava mamãe, eu não estava falando sozinha.
- Esta atacando -ela murmurou apertando a mão ao volante- Como você quer que eu pense que não tem esquizofrenia se esta falando sozinha.
- Droga eu não estava falando sozinha, agora faz o favor de ligar essa porcaria de carro e irmos embora.
- Vamos -ela pois o carro para funcionar e eu abri a janela do carro.. Não entendia porque tal tinha que ser assim, porque eu tinha que ser assim? oque ele era? isso não podia estar acontecendo, porque ele esta aqui ? Ele não existe, e agora esta comprovado, porém não queria que ele fosse apenas fruto da minha imaginação, não queria que ele fosse uma alucinação, talvez fosse o fato da solidão, e então eu o criei. A solidão pode fazer isso com alguém com problemas, a solidão deixa louco até quem não sofre de esquizofrenia, e talvez seja isso, talvez eu deveria voltar mesmo para faculdade, e terminar a minha faculdade. Talvez as pessoas já tivessem se esquecido que sou esquizofrênica.
- Eu quero volta para faculdade -falei a olhando, ela não tirou a atenção da estrada por um longo tempo, sabia que havia chateado-se-
- Não, você não quer
- Eu tenho vinte anos eu não tenho que ficar perdendo a minha vida dentro de uma clínica, mãe. Eu sou normal, sou uma pessoa como qualquer outra -suspirei- Eu sou gente como todo mundo é gente.
- Você acha que será uma boa ideia mesmo voltando a ter ataques ? a ter pesadelos ? -Respondeu-me firme olhando-me agora.- Você não vai voltar para a faculdade, Grace
- Você não pode me impedir de viver
- Estou te poupando, só isso
- Esse é o problema, eu não quero que me polpe de nada, droga mãe eu tenho vinte anos e ainda sou virgem, nunca tomei um porre, nunca nem tive uma experiencia lésbica como toda droga de garota de vinte anos tem.
- Você não é qualquer garota de vinte anos, Grace -ela gritou estacionando o carro e sai batendo a porta, eu iria para faculdade, eu faria essa alucinação parar sozinha, ele não voltaria mais. E eu não precisava da autorização dela para faze-lo, eu precisava mostrar a ela que eu era uma garota de vinte anos como qualquer outra .
* * *
- Meu Deus oque você esta fazendo aqui ? -Sussurrei para o garoto do balanço, que estava sentado a minha cama quando eu acabara de sair do banho vestindo meu pijama de porquinhos com azas
- Acho que você estava esperando que eu aparecesse de novo. -respondeu em um tom baixo, e pausado como eu disse ele parecia que havia aprendido a falar como uma criança de dois anos
- Não estava não -sussurrei caminhando até a porta e a trancando, liguei o radio em um som um tanto baixo na radio local, para que mamãe não me escutasse. - Você não é gente -falei
- Sou sim
- Minha mãe não te viu.
- Idaí, Grace ? Você esta me vendo, e isso que importa
- Porque você esta aqui ? -continuei a sussurrar, parada perto a comoda, ele despertava-me medo e desconfiança.
- Já disse -ele encostou-se na cabeceira da cama- Você queria que eu voltasse
- Tudo bem -respirei fundo- Oque você é ?
- Eu não sei -ele parou de falar por um tempo- Você pode sentar eu não vou te morder ou te matar
- Obrigado, até que você me diga oque faz aqui eu não quero chegar perto de você
- Ok -ele deu de ombros como se não se importasse, na radio tocava uma opera tão doce que sempre tocava naquele horário- O balanço, o balanço me traz boas lembranças, na verdade aquele é único lugar que eu me lembro que já estive .
- Por isso fica lá, todos os dias ?
- É -murmurou- Agora que você sabe que não me lembro de quem sou nem como vim parar na sua cabeça você pode se sentar aqui ?
- Não.
- Porque ?
- Por isso mesmo, eu não quero que você exista. -sussurrei e caminhei até perto do mesmo, como se ele fosse algo em extinção eu o observei com cautela, levantei a mão um pouco e com os dedos trêmulos eu cheguei perto de sua face - Se eu te tocar minha mão te ultrapassa ? -perguntei e o toquei, a pele pálida dele era macia, seus olhos caramelados me olharam com espanto .
- Meus Deus -falei- Você não é um fantasma. -ele deu uma risadinha e pegou em minha mão a tirando de seu rosto, suas mãos eram tão geladas e ásperas
- Eu não sou um fantasma, Grace
- Espere -sentei-me em sua frente- Como sabe meu nome?
- Eu já ouvi sua mãe te chamando assim.
- Oque você é ?
- Gente como todo mundo é gente
- Você não é gente, você nem sabe seu nome
- Eu sou gente -ele murmurou e ouvi a porta bater, ele olhou para mesma e eu segurei em seu braço-
- Não vá embora, não faça como antes
- Porque ? Você nem me quer por aqui -ele se levantou
- Então vai, vai e não volte -sussurrei indo até a porta quando voltei a olha-lo ele já não estava mais la, suspirei e abri a porta, mamãe sorriu com o canto direito dos lábios e eu voltei para cama .
- Oque é ? Veio dizer o quanto sou anormal ?
- Desculpe -ela entrou- Eu liguei pra faculdade, e você volta ainda essa semana .
- Oque te fez mudar de ideia ?
- Eu não quero te privar de nada, só não queria que passasse pelo que passou outra vez.
- Você não tem com oque se preocupar.
* * *
- Ele apareceu de novo -falei a Katherine, e ela olhou-me com os olhos semi-serrados-
- Onde ?
- No meu quarto.
- Perguntou a ele quem ele era ?
- Perguntei -falei baixo olhando para minhas mãos em meu colo- Ele disse que a única lembrança que tem é do balanço azul da praça.-levantei a cabeça para olha-la nos olhos- Ele disse que apareceu porque eu esperava que ele aparecesse .
- E seus remédios ?
- Ele apareceu depois que tomei os remédios.
- Você só o vê durante a noite ?
- Não, ontem eu o vi na praça como de costume, mas dirrepente ele estava ao meu lado no meio fio. -suspirei- Eu o toquei
- Como assim o tocou ?
- Toquei seu rosto, era como tocar gelo e flores -falei olhando agora para a janela aberta-
- Você o beijou ?
- Não, eu toquei-o com a mão. Engraçado -falei em um meio sorriso- Ele disse que era gente como todo mundo é gente mas não sabia nem de onde vinha .
- Talvez ele só seja fruto da sua cabeça, Grace . Você tem estado muito tempo sozinha, e sua mente precisa de alguém, talvez sua mente tenha o criado por conta de sua solidão
- Mas, mas ele parece tão real -suspirei- Tão solido
- Você o criou, Grace .
- Se eu voltar para faculdade talvez essas alucinações podem sumir não é mesmo ? -perguntei
- Claro, quando você esta rodeada de pessoas, você tem algo a mais para se preocupar do que a solidão .
- Acho que volto a estudar amanhã .
- Isso, volte . Vai te fazer bem, tente viver como se nunca tivesse tido tais transtornos .
- Vou tentar.
Sai da clínica e pari como de costume no meio fio, o balanço azul rangia com o vento indo para frente e para trás para frente e para trás, o garoto sentado a um banco observava o balanço com doçura . Eu poda sentir a nostalgia que aquele balanço o causava . Respirei fundo e fechei os olhos com força, talvez com aquilo o garoto sumisse dali, pelo contrário quando tal murmurou em meu ouvido pausadamente
- Me observando de novo, Grace? -sussurrou, e eu abri os olhos, olhei para os lado da rua e não havia ninguém , nem um barulho de carro, e nem um sinal de mamãe, somente o ranger do balanço azul
- Não vou falar com você na rua -sussurrei entre dentes
- Porque não ?
- Vão achar que sou louca.
- Bobagem
- Volte outra hora, estou tentando voltar pra faculdade
- Oque e faculdade ? -perguntou e eu o olhei
- Você nunca foi a uma faculdade ?
- Eu não sei oque é
- É um tipo de escola .
- Haa -ele abriu a boca balançando a cabeça- Não vou a escola a muito tempo
- Não me admira -falei para ele em um sussurro- A minha psiquiatra disse que eu criei você
- Como um amigo imaginário ?
- Isso é para crianças, acho que ela quis dizer que minha mente criou alguém para conversar, e não se sentir sozinha .
- Eu não acho que isso seja verdade, eu sou gente .
- Mas ninguém te vê .
- Você me vê -protestou ele, e ele falava tão convencido de que era real como eu esteva convencida de que ele não era fruto da minha mente, era como se ele também quisesse ser real . ouvi o barulho do motor do carro no fim da rua, e vi o carro azul de mamãe .
- Agora já pode desaparecer -falei
- Você se diz gente mas também que gente é essa ? Quer que eu fique mas também quer que eu vá, gente estranha -ele falou
- Vai -falei e fechei os olhos com força, quando o abri ele já não estava ao meu lado, e mamãe estava quase parando perto ao meio fio . Suspirei e assim que mamãe parou entrei no carro .
- Você quer morar no compus ? -ela perguntou em um sorriso costumeiro, abri a janela do carro, enquanto ela o ligava
- Quero -falei
- Vamos arrumar suas malas hoje -ela parecia animada com aquilo, talvez ela tivesse ido ao terapeuta, e ele poderia ter a convencido daquilo . - Chamei a Anna para ajudar
Dois dias depois
Enfim de volta ao campus eu não dividia quarto com ninguém, o quarto de Anna era três quartos do meu, ela sempre estava ali desde que cheguei, impedindo-me de ver o garoto do balanço azul. E a única coisa que restava-me eram os pesadelos, eu continuava morrendo, todos as formas que um ser humano poderia imaginar, eu continua voltando, e morrendo . Na radio local da cidade as onze e meia tocava a opera de sempre, a voz da doce mulher acalmava-me como sempre, mas naquela noite ele voltou, estava mais pálido, seu cabelo desgrenhado e sua aparência era de quem não dormia a dias
- Porque você voltou ?
- Você me chamou -respondeu e eu o olhei
- Não chamei não -falei para ele e levantei-me indo trancar a porta, aumentei novamente o som do radio.
- Porque você sempre escuta essa musica ?
- Ela sempre toca nesse horário na radio. -falei- E parece ser o horário que você decide me deixar louca.
- A culpa não é minha. Você me chama e eu venho.
- Eu não queria que você aparecesse de novo.
- Então isso é uma faculdade ? -ele disse olhando em volta
- Aqui é o campus, onde dormimos .
- Ha . -ele sentou-se ao meu lado na cama .
- Por que você não vai embora ?
- Eu não consigo, não sei ir embora
- Gente sabe voltar de onde veio
- Eu sou gente, eu só não lembro de onde vim
- Veio da minha mente, agora volta pra dentro dela
- Eu sou gente, e gente não vem da cabeça de outra gente -ele me disse em um resmungo- Eu não caberia ai dentro
- Porque você quer ser gente ? Ser gente é sentir dor, oque você sente ?
- Ora eu sinto dor como toda gente sente -falou e eu ri
- Oque dói ? -perguntei
- Eu não sei explicar
- A dor é física ou emocional ?
- Dói, só sei que dói . Dói aqui dói ali, dói o peito .
- E por que dói?
- Por que eu sinto como todo mundo sente
- E esse sentimento é saudade ?
- Oque é saudade?
- Você não sabe oque é ? -perguntei levantando meu olhos para o olha-lo
- Não .. Eu ... Eu sei oque é
- Você disse que é gente, gente sabe oque é saudade
- Eu sinto
- Sente oque?
- Saudade ora
- Saudade do que?
- Do balanço -falou- De quando eu brincava nele.
- Você se lembra do balanço quando tinha quantos anos ?
- acho que sete
- E oque aconteceu com você ?
- Não sei -ele sorriu com o canto direito dos lábios para mim-
- Eu queria saber seu nome
- Ué você não disse que vim da sua mente, inventa um nome também
- Mas você disse que era gente
- Mas eu não sei meu nome
- Você é tão confuso -falei e dei uma risadinha-
- Que palavra a de ser essa ? Nunca ouvi falar
- Quer eu ensine as palavras a você -perguntei
- Eu não, eu aprendo sozinho
- Além de confuso é orgulhoso -falei para ele
- Também não conheço essa palavra
- Eu acho que tenho um dicionário aqui -falei me levantando, e peguei um dicionário na comoda . Voltei a me sentar ao seu lado . - Enquanto você esta observando o balanço pode ler esse dicionário .
- Oque é isso? -perguntou pegando-o de minha mão .
- Ai diz o significado das palavras que você não sabe.
- Uma vez eu ouvi uma palavra muito estranha
- Qual ?
- Amor eu acho -ele murmurou baixo foleando o livro - Oque é amor, Grace ?
- Você disse que era gente, como não sabe oque é o amor?
- Gente não nasce sabendo
- Mas você já deveria saber, você parece ter vinte anos .-falei e ouvi alguém bater na porta e o olhei- Agora vai, volte depois quando souber o significado dessa palavra
- Tchau, Grace -ele sorriu e quando me levantei ele já não estava mais lá, abaixei o rádio, e abri a porta, Anna entrava como um furacão pela mesma, dando pulos e mais pulos de alegria . Ela fumava um cigarro que por onde passava trazia o maldito cheiro
- Festa, Grace. Os irmãos Maddox vão dar uma festa
- Quando ?
- Agora -ela falou animada
- Mas já são quase meia noite
- As festas começam agora
- Eu não tenho roupa.
- Nas festas dos Maddox você não precisa necessariamente usar roupas -ela disse sentando-se em minha cama com um sorriso encantador fazendo aquele olhar que só ela fazia para me convencer de algo, o pircing em seu nariz brilhava com a luz que batia contra o mesmo, dando um leve contraste em seus olhos azuis .
- Tudo bem
- Se arrume, o Shep passa aqui em meia hora .
Meia hora depois, já vestida de um suéter rosa, e calça jeans, eu fechei a porta do quarto. indo até o quarto de Anna, Shepley estava lá com ela. fumava um cigarro que parecia ser duas vezes mais fedido do que o que Anna fumava, ela vestia calça jeans justa e uma blusa que marcava-lhe os seios parcialmente redondos e médios . Sentei-me em um cadeira perto a escrivaninha, e a observei pentear os cabelos alourados
- Não sabia que gostava de festas desse tipo -Falou Shep para mim
- Eu não sei que tipo de festa é essa, mas eu precisava sair do quarto
- Ela não veio pra o campus só para estudar, Shep -Falou Anna terminando de se arrumar
- Onde é a festa ? -perguntei me levantando
- No porão do prédio masculino
- Então vamos ?
- Vamos -falei .
Saímos do prédio, e fomos no carro de Shepley para lá. Sheley era namorado de Anna desde que sai da faculdade , ele era um tipo de cara vamos dizer, passivistas que amava a natureza mais que o normal , participava de protestos contra a construção de prédios em áreas com grande quantidade de arvores, e daqui de Liverpool ele protestava contra a pena da cadeira eléctrica no Texas, ele era contra a muitas coisas no mundo, e o único protesto que ele já disse-me três vezes desde que cheguei foi o da legalização da maconha, eu não sabia que um dia poderia ter isso, mas o centro da cidade havia parado, e aquilo não havia mudado em nada. Ele dissera que seu sonho era que vendessem maconha em cada esquina da cidade, e assim ele não seria preso tantas vezes . Pois ele já foi pego com grande quantidade três vezes em só um ano . Bem fora oque ele havia contado-me na noite passada . Na festa eu tentava sentir que era normal, não pensei de jeito nem um no garoto da praça, ele poderia aparecer ali, e imagino o quanto seria constrangedor se ele aparecesse e eu falasse sozinha em uma das melhores festas da faculdade .
O apartamento parecia maior que eu esperava, E também não havia quase ninguém que um dia eu já havia visto, parecia que as pessoas que eu conhecera no ano anterior, já não estava mais lá, eu havia esquecido de perguntar isso a Anna, havia esquecido de perguntar a Anna oque havia acontecido com as pessoas, se elas haviam se mudado ou também saíram da faculdade . Me entregaram um copo avermelhado cheio de uma bebida forte que eu nunca havia tomado, a musica era eletrônica e fazia todos que estavam ali dançar, então era assim, era assim as festas de fraternidade. Era daquilo que eu precisava, se eu ficasse rodeada de pessoas não veria o garoto do balanço novamente, por mais que de alguma maneira era agradável a presença dele . Me encostei perto ao balcão e vi Anna e Shepley afastar-se e irem para o meio onde todos dançavam, eu não me sentia a vontade para tal coisa.
- Você é a Grace ? -Um garoto grande e fisicamente forte, tinha a pele bronzeada tanto quanto um surfista de Malibu . Grandes olhos azuis e cabelos tão negros como céu do inferno, um sorriso quente tocava-lhe a face corada .
- Sim -falei
- Eu sou Travis.
- Maddox ?
- Sim. -ele disse- Eu ouvi falar de você, é a garota que teve um surto a um ano não é ? -Ele perguntou tomando um gole do liquido que tinha no seu copo vermelho, e eu engoli em seco.- Não acho que foi um surto
- Oque ?
- Você fumou alguma coisa quando teve isso? sei la, acho que é normal -falou e eu ri
- Eu não estava chapada
- E por onde andou esse tempo todo ?
- Quando uma pessoa tem um surto psicótico ela não vai continuar a ir pra faculdade achando que aquilo fora normal . -falei e bebi outro gole
- Porque voltou agora ?
- Você faz muitas perguntas, Travis Maddox
- Você é interessante -ele sorriu- Seu suéter também
- Oque a de errado com meu suéter ? -perguntei-o sentindo minhas bochechas ficarem rubras
- Nada -ele riu, tinha um belo sorriso- Ele é interessante
- Obrigado -murmurei- Eu acho.
- Você é bonita.
- Obrigado.
- Ei, Travis -Um garoto com cabelos loiros, e grandes olhos castanhos o chamou parando em nossa frente- Estávamos indo fumar, você vai querer ir ?-O garoto quase não se importara com a minha presença. Travis olhou-me com um sorriso divertido
- Você vem, Grace ?
- Eu? -gaguejei- Não acho que seja boa ideia
- Ha, Grace . Vamos
- Quem é ela ? -O garoto perguntou a Travis
- Grace, cara aquela Grace
- Haaa -o garoto disse parecendo se lembrar de algo, encolhi-me escorando meu cotovelo no balcão, eu não sabia como reagir, era a primeira festa de muitas, e não acho que seria uma boa ideia pular do cigarro comum a maconha.
- Prazer -ele estendeu sua mão para mim, e eu o cumprimentei- Me chamo, Brazil -ele disse
- Hmm -murmurei
- Você não vai ?
- Acho que não, deixe para outro dia .
- Vaza Brazil ela já disse que não vai .
- O.k, Travis. -Brazil saiu resmungando, e eu respirei fundo, então eu era Grace a garota do surto psicótico, era assim que todos m conheciam . Suspirei e tomei outro gole
* * *
- Ha eu to bem, Anna, to bem, Travis, to bem Shep -falei sentando-me na cama e prendi um soluço na garganta, Anna sorria como uma criança de sete anos, ao lado de Shep, e tudo que me lembro é que meus sentidos haviam se perdido, na bebida , e lembro-me de as cenas estarem completamente misturadas em minha cabeça, eu quase não conseguia ficar de pé, era como se tivessem me dado alguma droga ou que tivessem colocado algo em minha bebida por que eu sentia que só oque poderia parar aquilo se eu dançasse, e foi oque eu fiz, eu dancei com aquele cara com aparência de surfista de Malibu vestido como um inglês coo se o mundo estivesse acabando, mas inúmeras vezes eu podia ver o garoto da praça, e aquilo era oque eu temia, distorcia minha visão, porém eu nunca havia divertido-me tanto .
- Podem ir, eu cuido dela -Ouvi Travis falar para Anna e Shep. deitei-me de costas para cama olhando para o teto
- Não -ouvi Ana dizer- Você não vai cuidar dela
- Shep, leva a Anna -Travis falou e eu me sentei corretamente
- Vai, Anna. -falei
- Tem certeza?
- Tenho -resmunguei e voltei a deitar novamente na cama . Ouvi a porta bater e fechei os olhos, ainda tonta.
- Você esta bem, Grace ? -perguntou e senti a cama afundar ao meu lado
- Estou -resmunguei
- Você é bem maluquinha garota -ouvi a risada do mesmo
- Sou? -me levantei para olha-lo
- Não literalmente maluca, mas no bom sentido -falou
- Oque você ainda esta fazendo aqui ?
- Você queria que eu ficasse
- Queria? -perguntei, ele sorriu e eu senti-o inclinar-se para perto beijando-me os lábios- Eu tenho a ligeira impressão de que havia alguma coisa dentro da minha bebida
- Você nunca ficou bêbada ? -perguntou e senti os lábios dele esquentarem meu pescoço.
- Eu acho que não -falei
- E como você se sente agora?
- Bem -o beijei- Muito bem
- Você esta bêbada -ele sorriu contra meus lábios e senti-o agarrar-me a cintura, eu não sabia se aquilo estava indo rápido de mais, nem ao menos oque eu realmente estava fazendo, mas eu queria aquele cara com um bronzeado de surfista de malibu, eu queria beija-lo . Senti o mesmo puxar-me com leveza eu cai de costas na cama, suas linguá quente deslizou sobre meu pescoço desnudo, e suas mãos ages abriram meu suéter rosa, abri os olhos e não acreditei no que vira, O garoto do balanço estava bem ali, com o dicionario em mãos sentado na poltrona perto a janela . Fechei os olhos com força e repeti para mim mesma que aquilo era apenas o efeito do Álcool , ele não estava li . Não estava ele não deveria estar.
- Oque houve, Grace ? -Travis perguntou e ele já estava sem sem um rastro de sua camiseta branca, deixando a mostra seu físico de quem não perde um dia de academia . Olhei-o e depois voltei a olhar para a poltrona perto a janela. O garoto do balanço não estava mais la
- Nada -falei- Não é nada -puxei-o pela nuca e voltei a beija-lo, ele imprensava-me fortemente contra a cama, apertando meus seios, minhas coxas, minha bunda .. Eu um suspiro e outro ainda com os olhos fechados eu o sentia me tocar, quando voltei a abrir os olhos para tirar a blusa, olhei para Travis mas não era ele quem estava ali, encima de mim, era o garoto do balanço, com um sorriso no canto dos lábios e sem camisa, mais magro do Travis, e duas vezes mais pálido do que Travis. ele beijou-me eu o beijei de volta, minha cabeça não entendia, eu evitei abrir os olhos por longos minutos, mas aquilo era demais para minha cabeça, eu estava quase transando com um cara e via outro ?
- Não da.. Não da -falei o empurrando para o lado e abri os olhos
- Oque que foi, Grace ?
- Eu estou bêbada -falei para ele pondo meu suéter- Eu falei para minha mãe que queria tomar meu primeiro porre e perder a virgindade mas não fora exatamente nessa ordem -falei me sentando e ele sentou-se ao meu lado, já não era Justin, e sim o grande Travis com bronzeado de surfista de Malibu
- Você é virgem ?
- Qual parte você não entendeu do perder a virgindade
- Ha .. Her.. Desculpa se eu soubesse que você era virgem não iria desse jeito
- Você já pode ir embora -falei me levantando
- Grace .. -o interrompi
- Por favor, eu preciso de um banho. Conversamos outra hora quem sabe -abri a porta para ele que vestiu a camiseta branca e se levantou . Caminhou até mim, deu-me um beijo e sorriu
- Virgem -ele balançou a cabeça com um meio sorriso - Até amanhã, Grace -ele saiu, fechei a porta e caminhei em passos rápidos até o banheiro , despi-me o mais rápido que pude, O garoto do balanço nunca aparecerá enquanto eu estava com alguém , mas ele estava bem ali, e aquilo era constrangedor, estranho e apavorante . Liguei o chuveiro e entrei no mesmo, tudo que eu precisava era de um banho, esquecer que o garoto do balanço estava bem no meu quarto a dez minutos atrás. Eu estava indo rápido de mais, eu estava ultrapassando todos os limites que eu prometera não ultrapassar . Respirei fundo e depois de longos quinze minutos sai do banheiro, vesti o pijama de porquinhos rosas com azas, deitei-me na cama
- Então é isso que se faz na faculdade ? -Ouvi perguntar, e abri os olhos, e o vi sentado ao meu lado da cama encostado a cabaceira, fechei os olhos de novo e suspirei.
- São quatro da manhã -sussurrei ainda de olhos fechados- Você é gente não, é ? Gente dorme.
- Oque você estava fazendo ? -ele perguntou em um tom que eu diria quase ingenuo
- Do que esta falando?
- Oque estava fazendo com aquele cara grandão, Grace ?
- Nada -respondi
- Você o conhece a quanto tempo ?
- Algumas horas.
- E vocês deixou ele te tocar ?
- Do que você esta falando ? -perguntei abrindo os olhos e ele ainda lia o dicionário, deitei-me de barriga para cima olhando par o teto
- Ele tocou você, e você fez um barulho estranho.
- Porque você estava olhando ?
- Eu gosto de te ver dormir, todas as noites eu sento ao seu lado e te observo dormir -Ele disse- eu não fiz por querer, não era minha intenção vê-la
- Então era você no meu quarto naquele dia.
- Que dia ? -ele tirou a atenção do dicionário para olha-la .
- No dia em que sente uma respiração pesada ao meu lado.
- Ha -ele voltou a olhar para o dicionário- Naquele dia eu fui descuidado, eu esqueci que você podia me sentir
- Isso é um pouco estranho
- Oque é estranho é você conhecer um cara em horas e já deixar ele tirar sua blusa.
- Estranho é só eu ver você -falei dando-o as costas , virando para o outro lado.
- Esse livro é diferente
- É um dicionário -resmunguei
- Você esta brava comigo ?
- Estou um pouco bêbada e com sono . então se não se importa, boa noite -falei para ele fechando os olhos
- Quer que eu vá embora ?
- Quero
- Tudo bem.
* * *
eram oito e meia vinte minutos antes de irmos para a as aulas quando eu ouvia Anna dizer o quanto havia gostado de ir a festa da noite passada, minha cabeça doía e vagas coisas vinham-me a mente, como o fato da quase transa não programada e interrompida pelas alucinações do garoto do balanço . E hoje de manhã parecia que eu havia vomitado meus rins. Entramos na cafeteria perto do campus e Anna acenou ao ver Travis e Shepley em uma mesa perto a janela, senti minhas bochechas ficarem rubras, e puxei Anna enquanto pegava o café
- Eu não quero me juntar a eles -sussurrei
- Você transou com , Travis ontem não foi ?
- Não -falei revirando os olhos-
- Vocês estavam quase transando na pista de dança -ela riu
- Estávamos ?
- Estavam -ela riu
- Como quer que eu sente com ele de novo ?
- Ele disse ao Shep que gostou de você.
- Ta vamos -respirei fundo- Vamos nos sentar
- Vamos -ela sorriu
Sentamo-nos etão junto a Shepley e Travis, que sorriu para mim. Forcei um sorriso para o mesmo. Cenas da noite passada vinham a minha mente, a conversa com o garoto do Balanço, a quase transa, o porre mas parecido como se eu tivesse usado drogas . Não era isso exatamente que eu esperava para minha primeira noite de festa na faculdade, na verdade eu queria que as alucinações parassem , eu queria contar a alguém sobre ele, queria contar a Doutora Katherine sobre aquilo, mas eu deveria esperar até as quatro da tarde para faze-lo, eu não poderia contar para Anna, ela não entenderia . Então se eu contar para a doutora ela irá apenas dizer para eu fazer mais amigos que em questão de alguns dias as alucinações vão parar, e claro me passara mais um rio de remédios .
- Quando ? -Shepley perguntou e eu olhei para Travis tomando um gole do café
- No sábado. -ele olhou para mim- Você vai, Grace ?
- Estava pensando em ir passar o fim de semana com meus pais -falei
- Mas sempre dão as melhores festas no final de semana -Disse Shepley
- Você pode ir para casa e vir pra festa -Pro pois Travis
* * *
- Como tem sido a faculdade, Grace ? -A doutora Katherine perguntou-me com um sorriso amarelo, e levantou o óculos no nariz
- Corrida -respondi
- Fez novos amigos?
- Acho que sim
- Conheceu algum garoto ?
- Sim, mas eu não acho que ele seja pra mim
- Porque ?
- Porque eu tenho a impressão de que ele -Pigarrei , e falei em um tom baixo- Ele me deixou bêbada para transar comigo
- Oh, Grace -Ela abriu a boca- Você lembra se usaram camisinha ?
- Eu ainda sou moça virgem, doutora -respondi me concertando na poltrona
- Ha -ela suspirou- Assim é melhor .
- Ele continua voltando
- Oque ?
- O garoto do balanço Azul -suspirei- Ele voltou, ele diz que é gente como todo mundo é gente, mas não conhece as palavras
- Como assim, Grace ?
- Eu dei um dicionário a ele
- Mas, Grace. Desse jeito você vai cada vez mais ter alucinações.
- Eu sei, Eu sei . Mas não importa oque eu diga ele sempre volta
- Quantas vezes já o viu desde que foi para faculdade ?
- Duas , na noite passada ele apareceu, e quando eu estava bem .. er.. com o Travis -gaguejei sem jeito- Ele esta na poltrona perto a janela, e depois eu o vi no lugar do Travis .
- No lugar do Travis ?
- É .
- Você pensa nele como oque, Grace ?
- Não entendi a pergunta doutora . -falei franzindo o cenho
- Você o criou como alguém atraente não é ?
- Sim.
- Você já teve sonhos bem.. um tanto
- Eu ... Eu não tive sonhos pervertidos com ele, doutora. Ele mal sabe oque é isso
- Grace, pare de falar com ele. Fique mais tempo que puder perto das pessoas, evite ficar muito tempo no quarto, faça oque fez na noite passada, vá a festas se divirta, não use drogas, e não transe sem camisinha pode pegar DST, mas se divirta. É disso que você precisa .
- Eu estava pensando em voltar para casa esse fim de semana, mas fui convidada para ir a uma festa
- Como eu disse evite ficar sozinha, vá a essa festa .
- É oque eu vou fazer -murmurei . Dez minutos depois de ouvi-la receitar mais remédios , eu sai da clínica, mamãe não viria me buscar então eu não tinha de ficar a esperar no meio fio e correr o risco do garoto do balanço aparecer, e como o esperado ele estava la de frente para o balanço, mas dessa vez lia um livro e eu sorri ao perceber que ele ainda lia o dicionário com uma expressão fascinante. Peguei um táxi e desci em rente a farmácia , pedi os remédios receitados pela doutora .
- Hey , Grace -ouvi a voz de Travis atrás de mim e sorri com o canto direito dos lábios
- Oi Travis
- Oque faz aqui ?
- É uma farmácia eu não vim comprar doces -Respondi-o pegando os remédios da mão da farmacêutica, e sorri entregando-lhe o dinheiro - Obrigado -falei os enfiando dentro da bolça
- Porque tantos remédios.
- Sou estressada -falei
- Deu pra notar, bem desculpe-me pela noite passada. -Ele coçou a nuca e eu o olhei caminhando para fora da farmácia- Eu acho que fiz algo que você não gostou
- Por que você liga ?
- Vem ca ? Você também é bipolar ?
- Não - respondi- Porque ?
- Por que parece que eu estou falando com outra pessoa e não com a Grace que conheci ontem
- A Grace de ontem estava bêbada.
- Ela era mais legal -murmurou
- Desculpe, eu não sou a garota fácil que você pensou que eu era .. Bem eu extrapolei apenas, mas eu não vou transar com você .
- Ok -ele disse assim que paramos em frente ao meu prédio - Eu não sei se ainda esta valendo, mas te encontro sábado na minha casa ?
- Ha, hér.. Sim talvez -falei e ele pois as mãos no bolço
- Até
- Tchau Travis .
Respirei fundo e subi para meu quarto, joguei-me na cama sentindo meu corpo e minha cabeça latejar . Tirei os sapatos e deixei a bolço encima da cama fechei os olhos ainda deitada . Tudo que eu precisava era dormir, oque eu não havia feito na noite passada .
- Descobri o significado de orgulhoso e confuso -Escutei a voz do garoto do balanço, e enrolei-me nas cobertas, deitei de frente para ele o olhando, ele estava sentado perto a janela com o dicionário em mãos
- É mesmo ? -perguntei- E você concorda que seja assim
- Eu não sou confuso -ele fez uma pausa- Não tanto quanto você
- Pensei que não voltaria
- Você pensou em mim
- Não pensei
- Pensou sim.
- Você então não é gente -falei fechando os olhos e abraçando o travesseiro- Gente não sabe oque outra gente pensa
- Mas eu sou gente, e eu não sei oque você pensa -ele disse- Só senti que pensou em mim
- Não pensei
- Grace -ele chamou e eu abri os olhos para o olha-lo- Eu fiquei bem.. como posso dizer... Ha .. Curioso com oque aconteceu ontem
- Não quero falar sobre ontem
- Porque não ?
- Porque você viu e isso é um pouco constrangedor
- Eu aprendi essa palavra também -ele sorriu docemente- Se é constrangedor porque fez ?
- Não sei.
- Por que você deixou ele te tocar assim com tanta força ?
- Você tem a mente de alguém que parece que vem de outro mundo -sussurrei
- Eu só fiz uma pergunta.
- Eu não quero responder
- Você me deixaria te tocar assim ?
- Oque ? -o olhei arregalando os olhos-
- Eu perguntei se você me deixaria te tocar assim
- Eu sei oque você perguntou só não consigo entender o por que
- Ha -ele olhou para janela- Desculpe, acho que fiz a pegunta de um modo errado
- E qual seria o modo certo
- Ainda não sei . -ele abriu o dicionário de novo- Mas você deixaria?
- Não, que pegunta estranha de se fazer -murmurei
- Desculpe -ele disse- Sei que não me quer por perto
- É, eu não quero
- Se os outros pudessem me ver você iria me querer por perto?
- Claro, se fosse não tivesse essa aparência estranha
- Oque tem de errado com a minha aparência ?
- Sei la -falei- Você parece que foi atropelado por um caminhão. Você causaria medo nas pessoas
- Eu causo medo em você?
- As vezes -fechei os olhos
- Desculpe
- Não se desculpe, apenas volte de onde veio.
- Se eu conseguisse
- Você quer voltar ?-perguntei ainda de olhos fechados
- Você quer que eu vá, se eu pudesse eu iria -falou- Não gosto de incomodar
- Você é minha alucinação -falei para ele abrindo os olhos.- Você é minha loucura
- Eu não sou uma alucinação
- Então oque você é ?
- Sou gente -ele disse convencido daquilo
Duas semanas depois
Tossi inúmeras vezes depois de fumar um cigarro de maconha ao lado de Travis, e Brazil. Na casa dele, era cinco da tarde quando Anna chamou-me para ir encontrar com ela lá, e como a doutora havia recomendado eu sai para não ficar sozinha, e é oque eu tenho feito para evitar o garoto do balanço, mas ainda o vejo quando saio da clínica, ainda o vejo em meu quarto e quando estou bebada . Soltei a fumaça que prendia na garganta e fechei os olhos encostando no sofá , era primeira vez que eu havia fumado maconha, eu não deveria, pois a doutora disse "nada de drogas" . Eu senti meus sentidos indo embora a cada tragada
- Hey, Grace -Travis me chamou e ele estava sentado ao meu lado, seus olhos estavam tão avermelhados que mal reluziam o azul safira- Olhe para aquilo, você esta vendo um gnomo parado bem ali na porta ? É o nosso amigo Bob -Ele disse apontando para a porta e eu por algum motivo dei uma risada cansada, mas sessou quando percebi que não era um gnomo e sim o garoto do balanço
- Oque você esta fazendo aqui? -olhei para o meu lado do sofá e agora o garoto do balanço estava sentado ao mesmo
- Fumando -sussurrei para ele .
- Você sabe que não pode, não é mesmo
- Não posso oque ? -sussurrei novamente
- Fumar isso, por causa do que você tem, Grace. Você pode ter outra ataque
- Posso sim
- Com quem você esta falando, Grace ? - Ouvi Brazil perguntar
- Ha .. com .. o Gnomo .. -falei- Ele é um cara legal -Travis e Brazil soltaram uma gargalhada, fechei os olhos em uma tentativa falha de fazer o garoto do balanço desaparecer, coisa que não fora possível, pois invés disso vi cenas distorcidas em minha cabeça.
- Você tem que parar, Grace -ouvi a voz dele me dizer
- Oque você esta fazendo aqui ? Você não pode aparecer quando eu não penso em você -sussurrei abrindo os olhos
- Você não pode controlar isso -ele murmurou e eu fechei os olhos vendo novamente as cenas distorcidas m minha cabeça, abri os olhos novamente e olhei para Travis ele tinha a aparência tão tranquilo de olhos fechados e com a cabeça jogada no sofá . Brazil fazia o mesmo. As imagens vinham e voltava, eu juraria que havia visto vovó parada a minha frente, e era como se meus pesadelos tivessem voltado, eu senti-me morrer, me vi morrer bem ali, na minha frente . Cutuquei Travis e ele virou seu rosto para mim, gritei quando vi que o rosto do mesmo estava ensanguentado. Levantei-me do sofá e corri, corri o mais rápido que pude até a porta, mas quando estava prestes a abri-la , mãos forte puxaram-me o calcanhar arrastando-me para um lugar obscuro . Já não era a sala do apartamento dos Maddox, Travis não estava mais ali, nem muito menos Brazil . Era apenas o vazio, era apenas o nada, não havia nada . Só a escuridão, era como se houvesse ficado cega, mas o garoto do balanço apareceu , tão pálido quanto das outras vezes.
- Onde eu estou ? -perguntei a ele, mas o mesmo não me respondera, ele olhava para o vazio e ainda segurava o dicionário . Seus olhos não tinham um foco, ele parecia olhar para o infinito .
- Hey -gritei para ele- Oque você esta olhando ? -Perguntei mais uma vez, porém não obtive resposta para ambas as perguntas, ele parecia não me ver, não me ouvir, nem me escutar . Comecei a entrar em desespero, eu queria voltar para casa, mas não sabia como faze-lo. Não sabia nem como sair daquela escuridão. Gritei por ajuda mas não obtive resposta, corri pela escuridão, mas não sabia se estava correndo em círculos, e foi então que senti-me cair em um abismo, o vento batia contra meu rosto com força, e eu já podia sentir o chão, gritei amedrontada e fechei os olhos . Já preparada para sentir a dor da morte, mas não fora isso que havia acontecido, quando abrir os olhos , eu estava parada em frente a clínica no meio fio, em uma manhã fria . Minha cabeça não entendia porque aquilo havia acontecido, eu havia entrado em pânico. ouvi alguém gritar meu nome , como uma suplica. Olhei para ambos os lados e não havia nada nem ninguém, olhei para praça do outro lado da rua e o balanço ia para frente e para trás rangendo como de costume alto e agudo.
- Grace ? -senti uma mão em meu ombro e virei-me bruscamente para olhar, não era uma pessoa era uma estranha mistura . Do sorriso do gato da Alícia no país das maravilhas, com o corpo de uma pessoa vestida de terno, apavorada, corri o mais rápido que pude para longe daquilo. Em apavorantes segundos de pois eu estava presa a uma cadeira eléctrica, e gritava por trás da mordaça em minha boca, mamãe estava ali bem a minha frente chorando como uma gatinha, papai que fazia dois anos que eu não o via estava bem atrás de mamãe com um olhar apreensivo e severo talvez, Patrick consolava mamãe . E começaram a aparecer pessoas, as mesmas pessoas que presenciaram meu ultimo surto, elas olhavam-me com desprezo enquanto eu me debatia violentamente contra aqueles que tentavam prender-me na cadeira eléctrica
* * *
- Grace ? -acordei com uma voz feminina chamar-me . Abri os olhos com tamanha dificuldade para habituar-me com a claridade do local onde eu me encontrava . Era um quarto completamente branco, uma poltrona branca e surrada perto a janela, que encontrava-se aberta balança as persianas brancas . Mamãe segurava minha mão com firmeza .
- Oque eu estou fazendo aqui ? perguntei em um tom baixo para ela
- Parece que você teve outro surto, e quase foi atropelada
- Oque ? Isso ... Isso é mentira eu não me lembro de ter saído da casa de Travis -falei
- Mas você saiu -ela sentou-se no pé da cama e olhou-me daquele jeito que só ela olhava, com cautela, medo, e compaixão - Eles disseram que você começou a gritar, perguntou onde estava, depois eles disseram que você gritou, gritou como se tivesse sendo esfaqueada ou algo do gênero, depois tentaram te segurar mas você saiu correndo do apartamento dele, e por pouco não fora atropelada
- Mas.. Mas eu não me lembro de ter acontecido isso mamãe.
- Da ultima vez você também não se lembrou -Ela disse e eu suspirei, apertei levemente sua mão e olhei para a janela .
- Desculpe
- A culpa não foi sua, Grace
- Foi sim mãe.
- Não foi, Grace. -Ela murmurou e deu-me um beijo na testa - A Doutora Katherine vem falar com você e depois nós vamos embora
- Eu vou voltar pra casa ?
- Vai, Grace
- Porque ?
- Por que ? Se você tiver outro surto desse você pode não ter a sorte que teve dessa vez -Falou ela e eu suspirei, estava sentindo-me tão mal com tudo aquilo que mal importei-me por Anna nem Shep estarem ali . Eu só queria voltar para meu quarto no campus, flertar com Travis e ter pessoas ao meu redor, pois naquelas três semanas eu distrai-me da minha vida e quase havia me esquecido que tinha essa doença . Naquelas duas semanas eu fui normal, mas tudo voltaria a ser como antes dessa vez, eu voltaria a ser sozinha, só com a presença de Mamãe, Patrick e a doutora Katherine em minha vida, depois do ocorrido sabia que Travis não flertaria com a esquizofrênica, Brazil não chamaria-me para festas, Shep não diria-me coisas sore seus novos motivos para protestar .E tudo por minha culpa, dessa vez não fora por causa de uma doença, fora por causa da minha imaturidade, eu sabia que não devia, mas mesmo assim quis faze-lo. Mamãe deu-me outro beijo molhado na testa e saiu, cinco minutos depois a doutora entrava pela porta com aquele olhar de quem provavelmente estava desapontada . Conversamos por longos minutos torturantes e frustantes. Eu queria ir para casa, e não ter de correr o risco de ser internada por três meses em uma clínica psiquiátrica . Subi para o quarto depois de agradecer mamãe por tudo, e pedido mais uma vez desculpas por tudo aquilo. Patrick nem Beijamim estavam em casa, eram sete da noite e eu estava com a mente tão cansada como se já fosse cinco da manhã . Depois de um longo banho, pus meu pijame de porquinhos rosas e com azas percebendo que mamãe já havia levado minhas coisas para casa e as arrumado novamente no armário, aquilo significava que eu não voltaria para a faculdade tão cedo . Liguei o radio e ainda estava na estação da radio local, dessa vez tocava uma doce opera de uma cantora desconhecida por mim. Sentei-me na janelo percebendo o costumeiro frio das noites da tediosa cidade de Liverpool, suspirei numa tentativa falha de superar que estava sentindo
- Me ajudar ? Que droga você esta falando ? Sua presença só pioraria as coisas . -Falei- Porque você estava lá, porque você me fez ver aquelas coisas ?
- Eu não tive culpa -ele disse sentando-se em minha cama-
- Você estava lá.
- Eu estava lá, mas eu não fiz você usar aquela coisa, Grace . -Ele respondeu alto o suficiente para que eu percebesse o quão estupida estava sendo, e como aquilo era estranho, podia não ser para mim pois ele estava li a minha frente, mas era para o resto das pessoas .
- Porque você ainda aparece ?
- Você esta se sentindo sozinha agora não é ?
- Estou -suspirei e o olhei-
- Também eu estava procurando o significado da palavra amor
- E você achou ?
- Achei
- E oque você me diz
- Bem eu vou ler para você -Ele disse abrindo o dicionário com um sorriso doce no canto dos lábios, ele gostava de descobrir as coisas, era como se ele fosse novo nesse mundo. Com aquele doce sorriso era difícil de pensar que aquele garoto não era real . E então ele começou a ler pausadamente- 1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2 Grande afeição de uma a outra pessoa de sexo contrário ou do mesmo sexo. 3 Afeição, grande amizade, ligação espiritual. 4 Objeto dessa afeição. 5 Benevolência, carinho, simpatia. 6 Desejo sexual.-Ele parou de ler e levantou os olhos para mim e sorriu novamente - As vezes parece que não significa só oque esta no dicionário, pois talvez se for isso acho que amo você -Ele disse e eu o encarei calada por longos segundos, sem saber oque dizer a ele, com aqueles grandes olhos castanhos a me observar com doçura e ingenuidade. Ele diminuiu o sorriso e voltou a olhar para o dicionário-
- Você não pode me amar -falei para ele em um sussurro quase inaudível por conta da opera a fazer o canto de fundo como em um filme de romance barato francês.
- Por que não ? Gente ama, Grace. E eu sou gente e também posso amar
- Não, não pode. -Falei- Porque você não é gente
- Por que eu não seria ?
- Por que você não existe, você é só uma alucinação -Falei e ele suspirou e fechou o dicionário o jogando em cima da cama
- Acho que fui precipitado em dizer que amava você, por que no dicionário não esta escrito que sentimos raiva da pessoa que amamos
- Você sabe oque é isso ? Raiva ?
- Sei, e é oque eu estou sentindo agora de você
- ÓTIMO -gritei para ele- Você esta com raiva, então vá embora
- Acredite se eu pudesse eu iria embora te deixaria, deixaria você pra ir lá com aquele grandão do Travis, mas eu não pedi por isso, Grace . Eu não controlo isso, quando vou aparecer e quando vou voltar, é como se eu fosse puxado do vazio para onde você esta -Falou e eu ia responde-lo mas leves batidas na porta fizeram-me quase cair da janela com o susto. Suspirei
- Quem é ?
- Esta tudo bem ? Com quem esta falando ? -gritou mamãe do outro lado
- No telefone
- Ha -ela gritou mais uma vez- Desça para o jantar, vou servi-lo em vinte minutos
- Ok, mamãe. -gritei e ouvi seus passos sinalizando de que ela havia engolido a desculpa e ido para a cozinha terminar o jantar . O garoto do balanço ainda estava sentado a cama. Eu não queria fazer aquilo, mas era oque deveria ser feito, ele não podia deixar-me loca .
- Eu sei que incomodo você
- Se você fosse real eu não me importaria se me incomodasse
- Mas eu sou real
- Sei que você quer acreditar nisso -Sussurrei levantando da janela e indo até a cama , sentei-me ao seu lado e peguei em sua mão. Tão gelada e áspera- Eu também quero
- Então acredite
- Não é assim
- Se você passar a aparecer mais vezes e em todos os lugares eu serei dita como louca por falar com você
- Mas você não é
- Eu sei, e você sabe. Mas as pessoas não, porque elas não veem você
- Como você faz isso ?
- Isso oque ?
- A menos de um minuto eu estava com .. raiva. E agora, é como se eu nunca tivesse sentido nada
- Eu gosto de você -falei apertando sua mão- Mas eu não posso gostar de mais de você
- Porque não ?
- Porque você não é real
* * *
- Como foi sua noite ? -Perguntou a doutora Katherine e eu suspirei
- Normal -menti, dessa vez eu não falaria sobre ele, não diria que continuava o vendo, pois se eu continuasse com isso seria capaz dela pedir para minha mãe internar-me em um hospital psiquiátrico por meses
- Esta se sentindo melhor ?
- Sim
- Você usou drogas, Grace ?
- Não
- Quer me contar como fora o surto ?
- Eu não me lembro -menti novamente- A única coisa de que me lembro era que estava na sala de Travis com ele e Brazil, e Anna na cozinha com Shepley
- Oque você estava pensando na hora ?
- Eu estava no vazio, e não havia ninguém. Depois lembro-me vagamente de ver um ser como se fosse de outro mundo, sombrio. E mãos puxando-me para a escuridão.. para o chão.. E a ultima coisa que lembro-me antes de literalmente apagar fora que eu estava na cadeira eléctrica, tentando soltar-me
- Você tem certeza que não usou drogas, Grace ?
- Tenho
- Você sabe que se tiver outro surto desses terá de ser internada não sabe
- Sei
Vinte minutos após uma longa conversa com a doutora Katherine , novamente eu me encontrava parada no meio fio, estava cedo faltavam vinte minutos para que mamãe chegasse, ela passaria ao super-mercado primeiro . Olhei para a praça e ele estava lá, observando o velho balanço ranger alto e agudo, indo para a frente e para trás consecutivamente com o vento. Respirei fundo e atravessei a rua indo até o banco da praça que era de frente para o balanço azul que ele observava. Sentei-me ao seu lado e ele olhou-me, brevemente. Não disse nada apenas voltou a observar o balanço
- Você esta bem ? -perguntei
- Eu costumava brincar aqui. Com meus pais, quando eu tinha sete anos. Me trás boas lembranças
- Você lembra onde eles moram ?
- Acho que não
- Eu posso te ajudar a encontra-los
- Mesmo ?
- Sim -falei e dei uma risadinha- Só não sei como vou fazer isso se você não lembra nem seu nome não deve lembrar o nome deles
- Você tem razão
- O balanço é a unica coisa de que se lembra ?
- Sim -ele murmurou- Talvez por ser a minha única boa lembrança
- Será que esse balanço esta velho e enferrujado de mais para nos aguentar -Perguntei-o após um longo silencio olhando para o balanço.
- Acho que não
- Então vem -levantei-me e peguei-o pela mão o fazendo levantar , ele sorriu para mim como uma criança alegre em noite de natal, e agarrou minha mão de volta. Havia dois balanços, uma ao lado do outro, pequeno de mais para nós dois, nos sentamos no balanço, e ele suspirou. o balanço ia para frente para trás lentamente com o movimento que fazíamos com os pés. E ouve o silêncio preenchido apenas pelo som do ranger do balanço azul, o céu estava nublado, frio de mais para aquela época do ano, mamãe não escolhera um bom lugar para se morar pois o tempo quase sempre estivera nublado, e triste, as nuvens engolindo o azul do céu e o calor do sol, em todas as estações do ano, era raro vermos o sol, era raro uma manhã quente como na Flórida, e era bom os dias raros que apareciam o sol
- No que esta pensando ? -ele perguntou ainda segurava minha mão
- No tempo -falei
- No tempo ?
- É, você já percebeu como tudo é triste com esse tempo ?
- Eu gosto, quando ta frio e nublado eu acho que tudo fica melhor, bem você não soa, não tem mosquitos, sempre tem chocolate, os inúmeros casacos, como no natal, parece que todo dia é natal
- Eu não gosto -o olhei- Eu queria ver o sol todas as manhãs, sair pra caminhar em uma manhã ensolarada e sentir os raios de sol bater contra meu rosto, eu queria ver o azul do céu e o por do sol.
- Talvez um dia eu te leve pra um lugar assim
- Eu não sei se um dia eu vá ver esse sol
- Porque ?
- Minha mãe nunca vai sair da qui
- Mas você pode ir sozinha
- Não -murmurei e olhei para frente da clínica, onde eu sempre ficara, o carro de mamãe parava aos poucos, levantei-me soltei sua mão e enfiei as mãos no bolço do casaco
- A minha mãe chegou
- Te vejo mais tarde -ele disse
- OK -respondi e caminhei apressadamente até o carro mamãe olhava-me atentamente enquanto eu atravessava a rua . Respirei fundo e entrei dentro do carro
- Oque você estava fazendo ali ?
- Te esperando
- Naquele balanço ?
- É
* * *
- Grace ? -A voz gulosa de Travis ecoava do outro lado da linha, eu estava ao lado de fora de casa, na varanda sentada na cadeira de frente para a rua, que bem, dava de encontro a porta da frente da senhora Meredite . Que desde que eu me sentara ali naquele fim de tarde e começo de noite, aparecera na janela com seu olhar cansado umas três vezes.
-Oi Travis -falei
- Como você esta ?
- Bem, acho que bem
- Bom -ele disse e eu podia senti-lo sorrir do outro lado- Eu queria me desculpar, eu não devia ter oferecido a você
- A culpa não foi sua, Travis, eu quis, e eu sabia que não devia
- Mas bem .. eu -Ele ficou um tempo sem dizer nada, mas eu havia ficado contente que ele lembrara de me ligar, no minimo eu estava esperando que ele pelo menos perguntasse a Ana alguma coisa.
- Você esta ai ? -perguntei em um murmuro, eu sabia que ele estava, eu podia ouvi-lo respirar
- Sim .. É que eu não sei oque dizer, isso não acontece todos os dias . -ele fez uma grande pausa- Você vai voltar pra faculdade ?
- Não
- Você não quer voltar ?
- Não é que eu não queira, minha mãe acha melhor eu não voltar
- Ha
- hmm
- Posso ir visitar você ?
- Quando ?
- Hoje
- Hoje?
- Você tem planos pra hoje ?
- Não.. Não exatamente -Respirei fundo, na verdade eu não tinha planos, o garoto do balanço apenas disse "te vejo mais tarde", mas aquele te vejo mais tarde queria dizer que ele voltaria não é mesmo, aquele te vejo mais tarde, queria dizer que ele voltaria mais tarde, e aquilo queria dizer que eu tinha planos para a noite não tinha ? Na verdade eu não queria que Travis viesse a minha casa, por mais que eu gostasse de flertar com ele na faculdade. - Você vem para o jantar ?
- Dá, você quer pular toda aquela parte do flerte, beijo, amasso, sexo e ir pro jantar em família ? -ele disse divertido e com um sotaque estranho, não contive um risinho sem jeito
- Nem passamos do flerte, Travis -falei- É um jantar de amigos
- Eu não vou a jantares na casa de uma garota para jantar com os pais dela quando eu estou flertando com ela porque bem, eu não flerto com amigas
- Você que sabe
- Eu não posso só ir ai fazer uma visita ?
- Você não vai pular a minha janela -falei respirando fundo em seguida
- Eu sei, você não do tipo rebelde
- Não, não sou. E não gosto de garotos pulando minha janela
- Tudo bem, Grace. Eu vou para o jantar
- Ok, tente passar uma boa impressão. Minha mãe não gostaria de saber que eu tinha idiotas como amigos na faculdade
- Se eu disser algo estranho me cutuque -ele riu- Eu nunca fui em um desses jantares, considere-se honrada senhorita Jones
- Oh, estou me sentindo. Até mais, Travis
- Até mais .
Desliguei o celular e fechei os olhos jogando a cabeça para trás, Travis era grotescamente comum e o tipo de cara idiota que eu evitei a minha vida inteira. E ainda tento evitar, porem evita-lo parece-me errado, Porque eu deveria evitar caras como Travis ? Exatamente, não havia porque eu querer evita-lo se eu nunca fui magoada por ninguém, não me dei ao luxo de me apaixonar por ninguém minha vida inteira, e a única coisa que eu sei sobre isso são as coisas que vi em livros. Aquele mero clichê de que se o cara é bonito, fala bonito e tem um sorriso encantador, ele no final vai quebrar seu coração. E talvez por medo eu agarrei-me a aquele medo de acontecer aquele mero clichê comigo. Mas do que eu tenho medo ? De me apegar a um cara bonito ? De me apaixonar por ele ou ser magoada ? Talvez seja isso
- Você anda pensando de mais, Grace -Ouvi a voz do garoto do balanço, abri os olhos e o olhei, ele estava sentado ao meu lado, era estranho, ele sempre estava com a mesma roupa, o mesmo cabelo estranhamente desarrumado, a pele pálida como leite, porém ele cheirava tão bem quanto qualquer outro cara, aquele cheiro familiar, de terra fresca e molhada, e por trás um vestígio de um perfume com o leve aroma de baunilha. - Talvez -sussurrei
- Eu terminei de ler o dicionário -ele disse e olhou para frente, para a rua vazia e a escuridão da noite fazia o papel de engolir qualquer vestígio do dia
- Onde você fica quando bem, não esta aqui ?
- No balanço, sabe, é o único lugar que sei ir -ele falou- Com quem estava falando ?
- O Travis
- O cara grandão?
- Não, o Travis la da faculdade -Eu não contive uma risada-
- Você gosta dele?
- Acho que não
- Mas você fala muito com ele
- Dá -eu ri-Eu também falo muito com você, esta com ciumes ?
- Não, eu não sou gente, não sinto ciumes -ele voltou a olhar para mim-
- Mas você disse que era gente ora, como não é agora ?
- Eu tive bastante tempo para pensar, e você não acha isso estranho ? Você não acha que é estranho eu não me lembrar de nada ? Só você me ver ? Não acha que é estranho ?
- Acho, mas talvez a convivência contigo me fez acreditar que de alguma maneira você existe
- Bem, é um fato, eu existo. Mesmo sendo só para você eu existo
- Eu não falo mas de você para a doutora
- Porque ?
- Bom -eu ri- Acho que estou ficando louca
- Talvez esteja
- Você é minha loucura garoto sem nome
- Talvez você seja a minha sanidade, Grace Jones -Ele disse pausadamente, e ouvi o ranger da porta indicar que ela estava sendo aberta. levantei a cabeça na direção da mesma e Beijamin saia da mesma, com um largo sorriso de criança despreocupada
- Hey, Grace -ele correu até mim- Com quem você estava falando ? -perguntou-me, e pela primeira vez o garoto do balanço continuara ali, inerme.
- Com meu amigo imaginário -falei
- Dá -ele riu e sentou-se em meu colo- Eu também tenho um amigo imaginário
- Mesmo ?
- Sim, o nome dele é Bob, ele é grandão -falou- Qual é o nome do seu amigo?
- Ha, eu não sei -tirei os olhos de Beijamin e olhei para ele, que tinha um leve sorriso formado no canto direito dos lábios finos
- Ele ainda esta aqui ?
- Huhun -murmurei- Mas é segredo, ok?
- E onde ele esta ?
- Sentado do nosso lado
- Quem é ele, Grace ? -o garoto do balanço perguntou-me
- É o filho do meu padastro
- Oque ele disse ? -perguntou Beijamin
- Ele quer saber quem é você
- Ha -Beijamin acenou para Justin com os pequenos dedos como se pudesse velo e sorriu, sorriu como se estivesse se divertindo. - Eu sou o Beijamin -falou
- Ele pode me ver ? -o garoto do balanço perguntou
- Você pode velo ? -perguntei a Beijamin
- Não -ele riu-
- Não conte isso a mamãe ok ? Ela não tem amigos imaginários então ela acha isso estranho
- Tudo bem
* * *
Travis vestia-se estranhamente bem, aquele modo inglês que ele tinha para se vestir era encantador. Mas naquela noite ele estava com uma camisa de botões branca e uma gravata rosa de flamingos, eu não sabia o porque daquela arrumação toda era só um jantar , ele parecia nervoso, quase não falava, e quando falava não era algo muito interessante a ser conversado. Patrick querendo passar aquela impressão de "pai" amigo, sorriu para Travis enquanto cortava seu frango a passarinho e disse
- Então você é o namorado da, Grace ? -Perguntou e Travis parou oque estava fazendo e quase engasgara-se com a comida
- Patrick -o olhei e ele novamente sorriu divertido-
- Mas por qual motivo ele estaria jantando conosco se não fosse seu namorado?
- Bom -Travis respirou- Eu sou apenas um amigo.
- Haa -Mamãe e Patrick abriram a boca-
- Que coisa Patrick
- Desculpe, só estava tentando ser legal
- Não, her, tudo bem -Travis franziu a testa- Acho que se eu levasse uma garota para jantar e ela fosse vestida como se estivesse indo para um baile, acho que meus pais pensariam o mesmo
- É que a Grace nunca trouxe ninguém aqui -Mamãe falou
- Mãe
- Ok, grace. Eu e Patrick vamos subir, fiquem a vontade -Disse mamãe, e eu pudia ver o quanto aquilo havia mudado o modo como ela via-me, porque quem é que vai se interessar por uma esquizofrênica ? Ninguém, e por isso ela havia pensado que eu estava melhorando porque tenho a certeza de que o fato de que eu estava sentada ao lado de um garoto bonito, com um bronzeado de surfista a fazia pensar que ele pensava que eu estava bem, e se ela pensa que não tinha nada, ela pensa que estou progredindo, tenho até um certo receio, pois ainda vejo o garoto do balanço, que pra falar a verdade chama-me mais atenção do que Travis, o cara com o bronzeado legal.
- Ah, senhor e senhora Jones foi um prazer conhece-los -Travis levantou-se apertando as mãos de ambos educadamente.
- O prazer foi nosso, é bom ver Grace trazer um amigo
- Obrigado, senhora -falou ele, respirei fundo e suspirei assim que os vi subir as escadas. Travis voltou a sentar-se ao meu lado.
- Vamos lá pra fora, essa situação deixou-me com vontade de fumar um cigarro -ele falou, eu o olhei, parecia realmente nervoso
- Porque você veio vestido assim ?
- Você disse pra causar boa impressão
- É mas não era pra você vir desse jeito, e porque essa gravata de flamingos ? -não contive uma risada, ele se levantou com pequeno sorriso no canto dos lábios, levantei-me também. E pergunto-me porque aquele doce sorriso não me cativavas, porque ? Ha essa minha vida é cheia de malditos porquês.
- Ela da sorte, e seus pais gostaram de mim, isso quer dizer que se eu fosse seu namorado eles me aprovariam -caminhamos para a varanda, nos sentamos nas cadeiras de madeira que davam de frente para casa da senhora Meredite. ele acendeu um cigarro, aquele maldito cigarro que deixava aquele maldito cheiro impregnado
- Isso foi constrangedor -murmurei abraçando meu suéter rosa.
- Eu disse para você, não é só eu que penso assim -ele soltou a fina fumaça de seu cigarro fedorento
- Eles não estão acostumados com isso
- Você tem vinte anos, Grace. Como nunca trouxe ninguém aqui ?
- Simples -sorri para ele- Eu nunca namorei
- Então quer dizer que você é totalmente pura ? -ele riu e acomodou-se na cadeira-
- É, eu acho
- Então quer dizer que talvez eu possa tirar sua pureza ?
- Não, Travis.
- Você não vai me recompensar por isso ? Deus eu usei a minha gravata da sorte só pra impressionar seus pais, e você não vai me recompensar.
- Hmm -murmurei sem saber oque dizer a ele.- Se você não percebeu senhor Travis, nós não estamos namorando, e eu não quero perder a minha "pureza" -eu ri e fiz aspas com os dedos- Com um cara que não é meu namorado
- É só sexo, Grace. Isso não importa muito, porque sexo é sexo
- Pode ser pra você.
- Grace -ele soltou a fina fumaça de seu cigarro e deixou a ponta do mesmo cair no chão, inclinou-se para perto da minha cadeira e sorriu.- Se pedir para namorar com você agora estarei sendo um completo babaca, porque só estarei interessado em te levar pra cama. E você é uma garota legal, então eu não vou pedi-la em namoro hoje
- Eu não sou tão ingenua assim, Travis. -Falei revirando os olhos, ele sorriu e tocou meu rosto com a mão livre e beijou-me sem permissão sem explicação, apenas beijou-me, e eu o beijei de volta. Aquele hálito de cigarro que me aborrecia nos lábios dele. Abri os olhos e ele sorria, porém não era exatamente ele, e sim o garoto do balanço, afastei-me bruscamente do mesmo e fechei os olhos, pedindo a Deus para que Travis voltasse.
- Você esta bem ? -Então era a voz de Travis dessa vez me chamando, abri os olhos e ele quem estava ali, apagando o cigarro e olhando-me com espanto e cautela
- Não... Não foi nada, eu só estou bem .. hã -levantei-me da cadeira e o mesmo acompanhou-me no movimento.
- Fiz mal em te beijar ?
- Não, não é isso é que -suspirei e cocei a testa- Acho melhor você ir
- Também acho, te ligo depois. E acho que dessa vez não precisarei pular a janela pra ir ao seu quarto -ele riu
- Se eu quiser deixar você subir não é mesmo
- Ha -ele gargalhou- Esta com medo de ficar em um quarto sozinha comigo e não conseguir resistir a isso?
- Como você é idiota -respondi-o ele roubou-me outro beijo e então disse que iria. Travis Madoxx, oque pensar do grande Travis Madoxx? não sabia oque pensar, Mas estava claro, ele não estava necessariamente interessado em namoro, mas também acho que seria pedir de mais que ele estivesse, eu também não estava, ele não me cativavas, não me despertava, porém sua companhia era agradável, ele estava ali não é mesmo ? Ele existia.
- Eu não gosto dele -Ouvi a voz inconfundível do garoto do balanço e assustada o olhei.
-Oque diabos você estava fazendo na minha cabeça de novo ? Porque sempre que estou com ele você tem que fazer isso ?
- Do que você ta falando ?
- Não se faça de inocente -Falei
- Eu não estava aqui, eu não me lembro de ter aparecido enquanto ele estava aqui
- Claro que você estava ... Eu vi você no lugar dele
- Não Grace, eu não estava
- Ok -respirei fundo- Então é isso ? Eu estou ficando louca? Mais louca do que já estava? Passei a te ver em todos os lugares é isso?
- Eu já disse, nós não podemos controlar
- Droga -novamente respirei fundo, sugando completamente o ar que pairava sob meu pulmão. Passei a mão entre os cabelos e suspirei - Desse jeito eu vou acabar em uma droga de um hospício
- Se você não se controlar -Ele sentou-se na cadeira-
- Me controlar? Vê se bota nessa droga dessa sua cabeça que você não existe, você não esta aqui. Você não é real, e não tem como eu manter o controle sabendo que você esta me enlouquecendo aos poucos -Gritei, e como resposta pude ouvir a porta sendo aberta. Mamãe e Patrick olhava-me talvez com horror, eles estavam ali o tempo todo ? Ou apenas para presenciar meu surto e minha discussão com o vazio, o nada. Dessa vez Justin não sumira, ficara o tempo inteiro ali, sentado.
- Com quem você esta falando ? -Mamãe perguntou
- Com ... Com ninguém. Eu não estava falando
- Você estava gritando, Grace. -Disse Patrick
- Não estava -protestei, talvez fosse a hora de deixar de esconder aquilo
-Por favor filha, você precisa nos dizer
- Não diga, Grace -disse Justin- Não diga, sera seu passaporte para o sanatório
- Eu não vou pra droga de um sanatório, cale a boca -sussurrei, porem não havia um porque daquilo
- Grace, com quem você esta falando? -perguntou mamãe novamente
- Eu .. Eu não sou louca -virei-me para eles
- Sim minha querida você não é, agora diga com quem esta falando
- Não diga, Grace -ele se levantou
- Eu preciso -o respondi virando o rosto para eles- Eles vão fazer parar
- Grace, você esta me assustando -mamãe murmurou
- Por favor, Grace. Não faça isso
- Eles vão fazer parar, eu preciso da minha sanidade de volta -respondi-o
- Eu posso ser real, Grace. -falou- Eu sou real
- Eu queria que fosse -fechei os olhos e suspirei voltando a olhar desta vez para mamãe
- Por favor, Grace . Fale comigo -disse ela
- Eu voltei a ter alucinações, os pesadelos não parão e ele esta sempre aqui
- Ele quem, Grace? -Patrick perguntou-me
- Ele, vocês não estão vendo ? Ele esta bem ali -apontei com o dedo indicador
- Não a ninguém ali Grace, não a ninguém -ele falou, e então pela segunda vez vi mamãe chorar baixinho, eu havia perdido qualquer pingo da minha sanidade, eu queria tanto que ele fosse real que doía-me o peito.
- Por favor, não me levem pra um hospital psiquiátrico -sussurrei
- Você parou de tomar os remédios ?
- Não, não parei eu os tomo todos os dias. Mas eles não fazem efeito, mamãe por favor não chore, eu ainda estou bem -caminhei até ela que soltou de Patrick e puxou-me para um abraço
- Você não é louca minha filha. Você não é -com aquele choro baixinho ela sussurrou em meu ouvido como uma ratinha adoentada
* * *
Uma semana depois
- Vá embora, você não existe, sai da minha cabeça, saí da minha cabeça -gritei tapando os ouvidos sentindo como se tivesse levado um soco no estomago. Ele tinha que ir, ele não poderia me deixar louca, por mais que de alguma maneira eu quisesse que ele ficasse, por que talvez eu o amava, amava ? Eu amava alguém inexistente? Uma alma penada talvez ? Não sabia oque ele era, só não queria que ele fosse apenas fruto da minha imaginação, e se ele era, eu tinha de fazer parar aquilo, porque talvez aquela frase não era apenas uma metáfora, o amor realmente me enlouqueceu. Porque desde que eu contei a mamãe e Patricik ele tem aparecido em todo lugar
- Eu não posso -gritou .
- Saí, por favor me deixe em paz, por favor . -chorei .
- Você não pode fazer com que eu vá embora assim ,Grace, eu estou ligado a você .
- O que ? -levantei minha cabeça e ele olhava-me docemente, a porta do meu quarto abriu-se com um estrondo, Patrick estava lá a arromba-la como um touro.
- Grace , Grace oque você esta fazendo ai querida -ele murmurou abaixando-se junto a mim e encolhi-me
- Mande ele ir embora , por favor , tire ele da minha cabeça , faça isso parar .
- Ele ? Ele quem ? -Patrick olhou em volta e o garoto do balanço ainda estava no mesmo lugar ainda estava ao mesmo lugar de pé perto a minha cama tão pouco preocupado com tudo aquilo . - Não á ninguém aqui , querida .
- Não Patrick , não -gritei- Você não vê ? Ele esta bem ali -chorei apontando e Patrick acompanhou meu dedo , voltou seus olhos para mim e olhou-me atentamente como se eu estivesse doente -
- Não á ninguém ali , Grace . -Seus olhos caíram tristemente , ele então tocou meus cabelos , eu havia enlouquecido.
- Por favor acredite em mim Patrick -sussurrei
- Eu acredito, Grace -Ele abraçou-me com mais força e senti-o suspirar- Eu acredito -ele afogava meus cabelos enquanto eu tentava conter oque sentia, o garoto do balanço ainda estava ali, eu queria que ele fosse embora queria que ele deixasse-me em pais, mas também estava com receio do que queria. Patrick levantou-se ajudando-me a levantar, e só então percebi a presença de mamãe na porta, ela abraçava a si mesma, com um olhar amedrontado e apreensivo
- Você esta bem ? -Ela perguntou
- Acho que sim
- Eu vou buscar seu remédio -ela falou, e eu pensava que ela daria-me um daquelas abraços acolhedores, mas não o fizera, apenas virou-se saindo do meu quarto. O garoto do balanço estava sentado a cama, e parecia triste talvez, mas eu não estava a me importar com a tristeza dele. Eu só queria que ele fosse embora, o fato de eu querer que ele existisse estava deixando tudo pior. Patrick abraçou-me de lado, e caminhamos em silencio até a sala, onde mamãe estava a segurar um copo com aguá e um comprimido.
- Tome, vai te ajudar a dormir -Ela forçou um sorriso
- Eu não quero ficar sozinha -respondi o engolindo e devolvi o copo para ela
- Podemos ficar com você até você pegar no sono -Patrick falou
- Eu não quero subir pro quarto -respirei fundo- Ele esta lá
- Você ainda não nos disse quem ele é -mamãe murmurou, e então sentei-me no sofá. Patrick soltou-me indo sentar em sua cadeira, mamãe sentou-se ao seu lado
- O garoto do balanço
- Que garoto, Grace ?
- O da praça em frente a clínica, eu tenho o visto a muito tempo de frente para o balanço, ele sempre observa com nostalgia o balanço ir para frente e para trás -Confessei, e senti o remédio fazer- E a um mês e meio ele vem falando comigo, ele sempre vai, some na escuridão, mas volta, volta como um anjo...
- E você contou a doutora sobre ele ? -Patrick perguntou-me, balbuciei enquanto deitava a cabeça no colo de mamãe, que parecia angustiada, eu não queria faze-la passar por aquilo, não queria decepciona-la.
- Contei, nas primeiras semanas eu contei, mas ela dizia que com os remédios ele sumiria .... Mas não sumiu. Nem por alguns dias
- Ele te faz mal ?
- Não -respondi em um tom sonolento, parecia que eu estava a delirar com o remédio- Ele é diferente -e então fechei os olhos deixando o sono me levar para outro universo, sem alucinações, sem preocupações.
* * *
Acordei e não estava em casa, não estava na clínica, nem em um hospital, muito menos na faculdade. A cama de metal tinha um colchão frio, e era coberta por um lençol cinza, o quarto sem janelas, com uma lampada iluminando somente metade do que deveria, estava quase escuro o lugar, caminhei até a porta e tentei destranca-la, ato falho não consegui faze-lo. O medo o desespero aparecera, oque diabos eu estava fazendo ali? Não era um pesadelo, precisei me beliscar para me certificar daquilo. Muito menos uma alucinação, a porta havia um pequeno espaço na metade dela com grades finas, como se desse para ver algo daquele pequeno espaço. Pus o rosto no mesmo e gritei
- Hey, tem alguém ai ? -Tudo que ouvi como resposta fora agouros, gemidos, um falatório que não dava para reconhecer oque era dito, pensei até em ter ouvido uma voz feminina falar hebraico.
- Alguém pode me explicar oque eu estou fazendo aqui -Gritei mais alto
- Cale a boca vadia -Ouvi minha resposta, de frente para a minha porta eu pude ver outra porta, com aberturas igualmente a minha, e uma garota com uma aparência nada apresentável olhava para mim, como se eu fosse idiota, ou algo do tipo.
- Você pode me explicar oque eu to fazendo aqui ? - Perguntei a ela, que dera uma risadinha exasperada, e deitara a cabeça no ombro.
- Você esta no inferno -falou.
- No inferno? -gaguejei, só porque eu era louca eu teria de ir para o inferno ? Loucos não habitam o paraíso? Não a oportunidade de viver com Deus ? Não eram dignos? Até os animais eram mais dignos que os que não tinham sanidade?
- Não é qualquer inferno, é o seu inferno -Ela riu novamente e acenou com os dedos saindo de perto da brecha na porta. Senti cada membro do meu corpo tremer. O meu inferno, aquilo ecoava pela minha cabeça, o meu inferno -BUM- o meu inferno, e então entendi, mamãe e Patrick haviam me internado, esse era meu inferno. Esse era meu medo, e eles haviam me colocado no inferno, eles haviam tornado meu medo a minha realidade, como se aquilo pudesse mudar em algo. Nunca ouvi dizer na internação de esquizofrênicos, eles não poderiam fazer isso. Esquizofrenia não era motivo para internação de alguém, eu era normal, eles não poderiam me internar, eu não era louca. Bati na porta com os punhos fechas e gritei, gritei o quanto podia, eles não podiam ter feito aquilo, gritei, gritei -BUM- como um animal perdido da mãe, chorei como uma criança no primeiro maldito dia de aula, gritei, fiz de tudo para que pudesse ser ouvida.
- Por favor me tirem daqui -Gritei batendo na porta, e com meus gritos, pensei que havia incentivado o resto dos loucos ou psicopatas, porque um enorme alvoroço começou, nada de gemidos nada de agouros ou vozes em hebraico, só os gritos e suplicas..
- Parem com a gritaria -Ouvi alguém gritar então enfiei o rosto na brecha das grades novamente. Um enfermeiro estava parado em frente a minha porta no corredor vazio
- Hey, Hey você veio me tirar daqui? -Perguntei
- Tirar mocinha? Mais você acabou de chegar -Falou, e então ele abriu minha porta fazendo a gritaria aumentar. - Calem a boca -ele gritou de novo, e então segurou em meu braço puxando-me para fora do quarto
- A doutora quer falar com você
- Que doutora?
- Katherine.
- Aquela vadia -rosnei puxando meu braço de volta
- Não rosne, eu não sou um cachorro -ele disse
- E eu não sou louca
- Eu sei, mas você também não tem uma sanidade mental muito boa
- Isso não é motivo para me colocarem aqui, então era pros suídas estarem todos aqui, aqueles malditos também não tem uma sanidade mental muito boa
- Esta vendo ? -Ele disse enquanto caminhávamos para fora dos corredores- Você não tem uma sanidade mental muito boa -O ignorei, aquelas roupas penicavam, era como roupa de presídio, só que não eram laranjas, eram meio azuladas, cinzas talvez. Eu não entendia aquilo, aprisionavam as pessoas como se elas fossem criminosas? Ou até mesmo animais? Porque mamãe faria aquilo comigo? Porque Patrick a deixaria fazer aquilo? Não tinha um porque, mamãe me amava , certo? Então porque ela me pois no meu inferno? o homem de branco deixou-me em frente a uma porta branca, longe dos corredores, fazendo não ouvir mais nada, não havia gritaria, nem agouros, nem barulhos de socos e ponta pés nas portas, só o silencio, o silencio de uma tarde calma e sem nem um rastro do sol, digo isso porque enquanto caminhava até a porta passei por um corredor com uma grande porta, que dava de encontro a um jardim, com bancos, cadeiras espalhados pelo mesmo. E algumas mesas, daquelas que se encontra em praças, mesas com jogos de xadrez encima, ou algo idiota do tipo.
Entrei na sala, sem bater ou qualquer cerimônia. Seja lá o maldito que me pois aqui, uma das culpadas era ela.
- Mandou me chamar, doutora ? -Perguntei sentando-me a sua frente, ela levantou os óculos no nariz e balançou a cabeça.
- Oh, Hér.. Sim mandei
- Vai me dizer oque eu estou fazendo aqui? -Perguntei.
- Sua mãe achou que era melhor
- Melhor pra quem? Me diz? Que direito ela tem de me prender como um animal? Hem? Que direito ela tem de me por no meu inferno?
- No seu inferno ? -Ela perguntou
- A minha pergunta não foi retórica -falei cruzando as pernas- Por tanto eu quero uma resposta
- Você não consegue mais controlar as alucinações, Grace. Porque não me disse que continuava o vendo
- Porque você não fez mudar nada, Doutora de merda. -Gritei sem conter o irritamento, como se aquela pessoa não fosse exatamente eu, eu nunca gritei com alguém que não fosse minha mãe, nunca ofendi ninguém, mesmo sabendo que devia-
- Os remédios fazem parar as alucinações
- Não os que você me recomendou, as alucinações nunca pararam, esses remédios nunca o fizeram parar
- Porque você não me disse ?
- Pra evitar isso, eu evitei até onde eu pude doutora. Eu deveria ouvi-lo e não dizer nada a mamãe
- Eu poderia lhe passar outros remédios
- Quer saber ? -levantei-me e respirei fundo- Você é uma psiquiatra de merda mesmo, tudo que sabe dizer é oque poderia ter feito , sendo que você sabendo daquilo não fez nada. -Não esperei que ela me respondesse , não esperei que ela dissesse uma palavra. Eu me contive, tive vergonha do que eu tinha por anos, mas dessa vez eu não ligava, dentro de mim algo dizia "Eu sou gente como todo mundo é gente", e aquela voz dele, ele estava certo. Eu sou gente, e não sou louca, se sou esquizofrênica, ou se tenho alucinações, eu continuo sendo humana. E pra que mudar oque eu era? Nesse mundo somos todos loucos, uns loucos filhos da puta, e eu tenho o minimo de sanidade para perceber isso. Entrei no meu quarto -aquilo era uma sela, que as pessoas chamavam de quarto para pensarem que um hospício era diferente de uma prisão, que não era pois só oque mudava eram os uniformes- O homem de branco então fechou a porta e eu voltei a ouvir o falatório, o alvoroço das vozes no corredor. a menina falando hebraico na sela ao lado, e a menina da sela a minha frente dando aquelas risadinhas exasperadas.
- Parece que eu já estive aqui ? -ouvi a voz do garoto do balanço, virei-me para ele que estava com as mãos no bolço e sentado a cama de ferro, seria pedir de mais que ele fosse embora, mais cá entre nós se eles achavam que eu era louca porque eu iria tentar provar minha sanidade. Eu amava um homem invisível, e não importava se só eu podia velo.
- Você se lembra desse lugar? -Perguntei
- Não que eu me lembre, mas sinto que já estive aqui.
- Isso aqui se chama inferno, se você já esteve aqui é porque você já esteve no inferno
- Desculpe -ele murmurou- Eu disse para você não contar a eles, eu disse que não podia ir embora
- Eu pensei que eles me entenderiam. Pensei que talvez se mais pessoas soubessem de você, você poderia aparecer
- Mas não é assim, Grace -murmurou- Eu já me convenci de que sou apenas um vazio, sem memória. -caminhei até cama e me sentei ao seu lado, o olhei por longos minutos.-
- Eu queria muito que você fosse real -murmurei pegando em sua mão pálida e gelada. seus dedos enroscaram-se nos meus. Como aquilo poderia estar acontecendo? Pra mim, ele era completamente real, mas para o resto do mundo ele não passava de uma alucinação. - Espere, talvez você seja uma assombração, daquelas que quebram as coisas, que movem. Assim você podia quebrar alguma coisas la na sala da doutora Katherine.
- Se eu não sou fantasma, não assombração , Grace -ele murmurou dando um risinho- E quem faz isso são demônios, e eu não sou demônio
- Eu sei, desculpe.
- Esta tudo bem
- Você acha que vão deixar trazer meu radio? Pra nós ouvirmos opera antes de dormir -perguntei
- Não sei, você quer que eu fique?
- Não quero que vá nunca mais.
- Não quero que vá nunca mais.
* * *
Uma semana depois
- Eu fui um grande amigo de Beijamin Franklin -Disse um homem, no quarto ao lado do quarto da garota que deixava escapar aquelas risadinhas. Seu rosto imprensado nas brechas da porta, os olhos negros e esbugalhados, os lábios rachados, cabelo por cortar, deixava parecer o quanto tempo ele já poderia ter ficado ali. - Para te contentares olha para os que possuem menos do que tu, e não para os que possuem mais. -citou como se tivesse decorado aquela fala de Beijamin Franklin a tempos- Eu estava com ele quando ele disse esta frase, era a hora do chá quando ele me alertou
- Alertou do que Aaron? -Outra voz brotara do silêncio. A cada segundo que eu passava ali, sentia o quanto aquilo estava errado, eu não era louca. Não como aqueles que falavam coisas sem sentidos, nunca algo assim aconteceu comigo, eu nunca disse tais coisas que pudessem constatar minha loucura. Eu precisava sair da li, precisava da minha liberdade.
Vozes e mais vozes começaram a conversar, eu olhava com o rosto entre a brecha das pequenas grades para o vazio dos corredores, cheios de portas, cheios de quartos-selas. Eu só queria ir para casa, provar minha sanidade e ir pra faculdade, ter uma vida normal, era tudo oque eu queria.
- Hey -a garota do quarto a frente me gritou
- Oque é ? -perguntei, a olhei bem enquanto ela sorria com o rosto colado as grades, as mãos agarravam com força a grade, as unhas sujas de terra, o cabelo despenteado. -BUM- ouvi a menina do quarto-sela ao lado gritar algo em Hebraico, assustada porém tentei não ligar para aquilo, era estranho de mais para se prestar atenção nos sussurros, gritos e gemidos em hebraico que ela dizia.
- Eu lembro de você -falou
- Lembra de mim? Em qual inferno você me encontrou ?
- Sonhei com você uma vez -Respondeu sem desmanchar o sorriso quase -aparentemente- inocente e doce.
- Você é maluca -falei
- Eu não sou louca, eu tenho visões, mas os meros seres humanos não intendem as minhas habilidades, e acham que é loucura
- Pudera não é? Que tipo de visões? -perguntei descrente
- Eu sonhei que você chegaria, sonhei que você estaria aqui.
- Só isso ?
- Oque mais você quer?
- Prove que foi comigo, diga meu nome
- Ellen -falou ela convencida daquilo, e não contive um risinho
- Que vidente ruim você é -falei
- Elena ?
- Não
- Liezel?
- Nem chegou perto
- Ember ?
- Não, chega, já disse suas visões são péssimas
- Espere eu vou acertar
- Tente então
- Zoe? Rebeka? Blue? Caroline? Emma? -BUM- já sei
- Diga então
- Molly, não diga que esse não é seu nome, as vozes me contaram -ela soltou um risinho nervoso-
- Vozes mentirosas
- O nome dela é Grace -disse o cara do quarto-sela ao lado do quarto da menina a minha frente, o olhei assustada. e ele acenou risonho
- Hey, Hey -murmurei- Como sabe meu nome ?
- O Justin conhece você, a unica coisa que ele falou nos últimos meses, foi "Grace", ele nunca tinha falado desde que chegou aqui, e eu já vi as puntaras dele, as rasuras... -ele fez uma pausa e olhou-me bem- São você
- Do que você esta falando ? -gritei, ele gargalhou -BUM- a garota do quarto-sela, ao lado começou a fazer barulhos e gemidos estranhos. Aquilo era estranho, era loucura. Um louco que me desenha, um louco que sabe meu nome. Que diabos estava acontecendo ?
- Fale com ele, tente a sorte de ser respondida, Charles Chaplin já dizia, não fale a linguá dos loucos se não a compreende
- Do que você esta falando ?
- Justin não fala -Disse a menina a minha frente, eu a olhei- E quando ele fala tudo que aquele idiota retardado sabe dizer "Grace", parece que ele esta perdido dentro dele, no coma mais profundo da loucura, do delírio. Ele não sabe falar
- Eu não estou entendendo -falei para ele- Vocês são loucos, existem outras Graces no mundo -Falei -BUM- a garota do quarto-sela ao lado gritou, mas desta vez falava em linguás estranhas, como daquelas que se vê em filmes de terror. Naquele momento eu já não conseguia resistir ao medo, uma garota que fala linguas estranhas e também hebraico dormia ao meu lado, fazia barulhos estranhos como se tivesse arranhando a parede, gemidos e sussurros estranhos... E um garoto que sabe meu nome e me desenha. Eu estava no meu inferno, e tinha de arranjar um jeito de sair dali
- NÃO EXISTE -gritou Aaron- É você, eu vi você nos desenhos
- Me leve lá então, me leve até ele e aos desenhos
- Ele não sai do quaro
- Você precisa me levar até lá
- Eu levo -disse a garota a minha frente com aquele sorriso de criança inocente-
- Não fique sozinha com a Sarah -Alertou uma voz masculina, porém não pude ver quem era, vinha da sela ao meu lado direito.
- Cale a boca seu velho babão -gritou ela
- Não se engane com esse sorriso de criança -A voz disse outra vez - Esse sorriso já matou meio milhão de pessoas, ela é tão perigosa quanto o próprio Hitler
- Hitler é meu herói -disse Aaron.
- Vocês são loucos
- Não sou louca -mais uma vez Sarah protestava
- A humanidade não nos intende porque não quisemos nos render ao capitalismo, nós somos tudo que vai contra oque eles pregam, então nós somos julgados como loucos -Aaron falava- Mas os verdadeiros loucos são eles-BUM-
* * *
- Eu estou com medo -sussurrei para o garoto do balanço abraçando meus joelhos, sem relógio eu não sabia as horas, porem era pouco antes do almoço pois nos deram remédios.
- Não fique..
- Não vá embora nunca mais, você ficou tanto tempo fora
- Eu sinto que cada minuto que eu passo aqui vou me desligando de você
- Você não pode fazer isso, não agora
- Eu sinto que se eu for da próxima vez eu não vou conseguir volta
- Do que você esta falando? Porque isso esta acontecendo ?
- Eu não sei Grace-ele tocou minha mão e beijou-me a testa
- Acho que esta na minha hora, talvez eu seja apenas uma alma que precisava amar antes de seguir seu caminho
- NÃO -gritei- Você não é, você não pode ir embora assim
- Eu vou ficar com você até quando conseguir, mas o vazio me puxa pra escuridão -murmurou, soltei meus joelhos e pela primeira vez tive um contato a mais do que pegar em suas mãos, abracei-o abracei-o com força e paixão, daqueles abraços tão apertados que podem até substituir mil beijos, ele me abraçou de volta. E eu podia senti-lo sorrir , a porta do quarto então se abriu. soltei Justin e olhei para o enfermeiro a minha frente
- Hora do almoço -falou e então me levantei, eu tinha que perguntar, precisava saber desse tal Justin que sabe meu nome, e me desenha.
- Posso lhe fazer uma pergunta ? -Perguntei ao enfermeiro ciente de que o garoto do balanço ainda estava ao meu lado.
- Faça
- Quem é Justin ? -perguntei saindo do quarto, ele lançou-me uma olhadela rápida, e no corredor pude ver um por um saindo de seus quartos-selas.
- É um paciente, ele não sai do quarto
- Porque?
- O estado dele não deixe que ele saia
- Oque aconteceu com ele ?
- Ele sofreu um acidente de carro, perdeu a memória, parou de falar e parece ter entrado em um surto meio estranho, como se ele ainda estivesse em coma. Mas a alguns meses ele vem falando, e desenhando
- Falando oque?
- Ele sempre chama por uma garota chamada, Grace. Mas não deixa que vejam seus desenhos -murmurou, olhei para o garoto do balanço e demorei para ligar os pontos. Não podia ser ele, aquilo mudaria tudo, era loucura, era coisa sobrenatural, coisa que não vemos na vida real. Tudo estava distorcido, eu não conseguia acreditar. Sentei-me em uma mesa sozinha após pegar minha bandeja com a comida cheia de legumes estranhos , e agarrei a mão do garoto do balanço
- Esse garoto pode ser você -falei para ele
- Eu?
-É, você parece que sofreu um acidente esta vendo? Suas roupas rasgadas, você não se lembra de onde vem nem seu nome.
- Eu não sou humano
- Só vamos saber se formos ao quarto desse "Justin"
- Isso é errado, Grace. Talvez seja apenas coincidência
- Eu preciso disso. Se você for ele eu posso provar a todos que não sou louca -apertei mais sua mão e sorri- Nós podemos sair daqui
- Você acha que eu sou a alma dele ?
- Não sei
- Como você acha que vamos nos ligar ?
- Talvez esse seja o motivo para você ter entrado na minha vida, e por eu estar aqui, é como se tudo estivesse ligado a eu te trazer pro seu corpo
- Isso é loucura -falou puxando a sua mão de volta, eu sabia que era loucura, sabia que aquilo era insano, mas era a única esperança para salvar a minha sanidade
- Eu sei... Eu sei. Mas essa é nossa unica chance -falei e então Aaron e Sarah sentaram-se a mesa, Sarah sentou-se onde Justin Estava sentado, e pela primeira vez vi alguém ultrapassar seu corpo.
- Você esta sentada encima do meu amigo -falei para Sarah
- Ha desculpe -murmurou e sentou-se em outra cedeira, ela sorriu para mim e disse
- Eu posso te levar ao quarto dele agora
- Ele me deixa entrar lá, só eu posso ver os desenhos dele -Falou Aaron levando uma colherada de arroz a boca, olhei para o garoto do balanço e ele suspirou
- Vamos fazer isso -ele disse concordando
- Vamos -falei suspirando aliviada.
- Esta falando conosco ou com seu amigo ? -Aaron perguntou
- Com meu amigo
- E você vai querer ir lá ou não? -perguntou Sarah
- Eu vou também, a Sarah não pode andar sozinha -Falou Aaron risonho, as vezes os loucos tem aquela extrema sinceridade, aquela coragem que te faz ter inveja deles. Eu tinha arranjado dois camaradas loucos, uma era maluquinha de pedra, a vidente do hospício.. Outro era o revolucionário da década de 50, que já esteve com vários artistas, escritores, e cientistas famosos assim dizia ele. Toda meia noite ele dizia que os encontrava, ia para lisboa, Paris, Manhattan, Nova York, conhecia até Picasso, e voltava pela manhã. Era um maluco até simpático, suas histórias até pareciam reais.
- Você vai comer isso? -Perguntou-me sarah enquanto se levantava- Vamos logo, ainda tem o horário para os jogos -Aaron se levantou, e eu também. Tentei agarrar a mão de Justin para que eu pudesse ajuda-lo a levantar, porém minha mão o ultrapassou
- Oque esta acontecendo ? -perguntei
- Eu não sei
- Porque favor, diga que isso é uma brincadeira -falei tentando novamente pegar em sua mão, ele então se levantou sem minha ajuda.
- Eu não estou brincando, Grace.
- Você vai voltar a ser como era, ok ? Só espere até que eu comprove isso, por favor
- Você é mais maluca do que nós dois juntos -Riu Aaron enquanto caminhávamos para fora do espaço de refeição
- Daqui a pouco ficará pior que a Beth do quarto ao lado, ouvi dizer que ela tem um demônio -Falou Sarah e deixou escapar um risinho
- Um demônio ? -perguntei amedrontada
- É, mas os médicos dizem que é só surto, mas eu ouvi dizer que até levaram um exorcista na casa dela -Aaron completou
- É por isso que ela fala essas línguas estranhas ??
- Não é ela que fala, Grace -Sarah soltou aquela risadinha exasperada- É o demônio
Tentei não acreditar naquilo, eu não queria acreditar que dormia ao lado de uma garota "possuída" , recusa-me a acreditar naquilo. Recusa-me a acreditar em palavras de malucos. Recusa-me pelo simples fato de que me dava medo. Oque me deixava pior era saber que o garoto do balanço aos poucos ia desaparecendo, aos poucos ele ficava menos visível. Paramos em frente ao quarto que eles diziam ser do Justin. e olhei para o garoto do balanço
- Você esta pronto ? -perguntei, ele balançou a cabeça afirmando
- Sim -murmurou
- Vamos -eu disse a Aaron, ele assentiu e abriu um pouco a porta.
- Sou eu, Justin ... Aaron -Falou e eu não ouvi a resposta, respirei fundo- Fique aqui Sarah -ele falou para ela- Não quero que entre.
- Mas eu...
- Sai logo -gritou, ela emburrou-se toda e se afastou, Aaron entrou e eu entrei logo após, o garoto estava de costas e eu estava tremendo, de medo, de ansiedade. Aquela seria minha carta de alforria, se ele fosse o garoto do balanço eu provaria a todos que eu não era louca.
- Grace -o garoto disse ainda de costas , ele desenhava algo. Olhei em volta e aquilo parecia um santuário feito para mim, o quarto era repleto de esboços meus, cada detalhe, cada traços, tudo desenhado com bastante clareza, alguns eram rabiscos mas ainda pareciam comigo. O garoto do balanço também olhava em volta com cautela, ele parecia embasbaca e parecia também desaparecer aos poucos. Caminhei até ele, e então tive a certeza... Era ele, porém não parecia ter sofrido um acidente. Mas como Sarah disse ele parecia ter entrado no coma mais profundo da loucura, ele olhava para o vazio, seus olhos não tinham um ponto fixo. Ele parecia não estar ali, tão bonito, tão perdido.
- A Grace esta aqui, Justin -Falou Aaron
- Grace -ele disse novamente
- Aaron -sussurrei para ele
- Oque ?
- Você acreditaria se eu dissesse que meu amigo é o Justin
- Oque ?
- Eu venho conversando com o Justin a meses, e só eu consigo velo
- Você achou a alma dele ?
- A alma dele me achou -murmurei
- Então faça os corpos se ligarem
- Eu não sou bruxa nem macumbeira, Aaron
- Mande ele tentar se ligar
- Ele quem ? -perguntei
- A alma
- Ele não sabe -Falei, e então o garoto do balanço havia sumido. Sem se despedir, sem dizer Adeus, sem nem uma palavra, ele só sumiu
- Grace -ouvi Justin dizer, porem ele continuava olhando para o vazio
- Justin? -parei em sua frente, ele estava sentado na cama com um caderno na mão
- Grace -Ele disse novamente
- Você me conhece? -perguntei sentando-me ao seu lado, pedindo aos céus que eles tivessem se ligado
- Eu.. Eu... -ele gaguejou, porém ainda olhava para o vazio
- Eu sou a Grace, Justin -murmurei- Sou eu, sou eu por favor fale comigo -Em súbito, na loucura que tornou-se minha vida, ele virou a cabeça lentamente para mim.
- Grace?
- Sim -eu sorri - Você conseguiu? Você conseguiu se ligar? Se encontrar ? Eu trouxe sua alma de volta
- Grace ? -Ele perguntou novamente e aos poucos eu podia senti-lo voltar, talvez voltar ao seu corpo, sua alma estava se ligando. E então percebi, não era loucura, era um propósito. Meu dever era trazer a alma perdida dele. Mas quem acreditaria ? Como aquilo me ajudaria ?
- Seu nome é Justin -eu sorri enquanto pegava em suas mãos, pela primeira vez tocar era mais intenso, ele estava quente.
- Meu nome é Justin? -Ele perguntou
- Sim .. Acho que combina com você
- Oque estamos fazendo aqui ?
- Você não se lembra de como veio parar aqui ?
- Ele perdeu a memória no acidente -Disse Aaron
- E quem ...é... é .. é você ? -Ele gaguejou para Aaron que cruzou os braços um pouco a baixo do peito.
- Sou Aaron, seja bem vindo, amigo -Ele falou dando-nos as costas, eu voltei olhar para Justin, já não tinha aquele olhar vazio, já não cheirava a terra molhada nem a baunilha, ele tinha cheiro de hospital psiquiátrico.
- Você esta bem? -sussurrei
- Sim, e-e-eu estou um pouco confuso, que desenhos são esses?
- Você quem desenhou
- Eu? Mas eu nunca estive aqui
- Seu corpo nunca esteve comigo Justin
- Como assim?
- Sua alma estava perdida
- Perdida? Grace isso é loucura, eu sempre fui real
- Você é real -eu sorri para ele tocando sua face quente, ele deitou sob minha mão e fechou os olhos por longos minutos.
- Eu sinto isso com tanta clareza -ele sussurrou
- Porque agora sua alma esta no seu corpo -falei, ele abriu os olhos e levantou a cabeça, olhando para trás de mim, quando acompanhei seus olhos pude ver, a Doutora Katherine e mais dois enfermeiros.
- Oque esta acontecendo? -ela perguntou- Porque o Justin esta falando?
- Doutora eu preciso falar com você -levantei-me indo até ela, Justin não se levantara-
- Oque você fez com ele
- Olhe os desenhos, sou eu doutora -falei apontando para os desenhos espalhados pelas paredes do quarto, sou eu quem ele chama, e é ele quem sempre esteve na minha cabeça.
- Do que esta falando, Grace ?
- Ele quem sempre esteve na minha cabeça, ele apareceu em meu quarto, na minha faculdade, na clínica -Falei convencida de que aquilo estava dando certo, ela olhou-me por um longo tempo calada e segurou meus ombros
- Justin não sai daqui a dois anos, Grace. Ele esta nesse estado desde que chegou aqui, como acha que isso que esta dizendo pode ser real?
- Mas é real, a alma dele se perdeu e eu a encontrei por isso estou aqui para traze-la de volta
EM ANDAMENTO


aiiimmmm <3
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